terça-feira, 8 de dezembro de 2009

NO DIA DA IMACULADA CONCEIÇÃO

Formalmente, a doutrina católica tradicional do pecado original está ligada à concepção criacionista, rígida e fixista, da origem dos seres vivos, incluindo o homem, tal como decorre do entendimento literal do relato bíblico do Livro do Génesis. Tal ideia resulta igualmente do pressuposto de que Deus, sendo a absoluta perfeição e bondade, não poderia ter criado o ser humano com uma tendência natural para praticar o mal. Assim, Deus teria criado o homem estruturalmente bom, pelo que o mal teria sido consequência de uma grave desobediência do primeiro homem e da primeira mulher, de que resultou uma degenerescência da sua qualidade humana inicial que, como um estigma, seria transmitida de geração em geração e caracterizaria desde então a espécie humana. Esta é a visão tradicionalista, mas as coisas podem, e porventura devem, ser vistas de outra maneira, para quem aceite que na criação Deus pode ter utilizado a «técnica» da evolução das espécies (ver aqui) e que é possível outra explicação para a existência do mal no mundo.

Nesta perspectiva, podemos dizer que toda a criação, quer do universo material e energético, quer do homem (este, como ser racional e livre, à semelhança de Deus, que é a infinita racionalidade e a suprema liberdade), é por natureza limitada (só Deus, incriado, é ilimitado) e nesse sentido imperfeita, já que comporta apenas uma parcela da infinita perfeição de Deus. Por isso, tudo o que foi criado é, por força desta limitação estrutural, susceptível de erro ou desvio. É esta limitação natural do homem, inerente à sua qualidade de ser contingente e finito, que tende a conduzi-lo, por uso incorrecto da sua racionalidade e liberdade, àquilo que se pretende exprimir como «efeito do pecado original».

Jesus Cristo, homem nascido no tempo e na história, de uma mulher, Maria, é ao mesmo tempo o Verbo incriado e intemporal, gerado desde toda a eternidade como projecção do Pai, pelo que os dois, na sua dupla natureza (humana e divina) constituem uma única pessoa, um único eu. Ora este homem não poderia ter sido gerado com o atributo da tendência natural para cometer um desvio moral, ou seja, o pecado. Assim, foi dotado de uma natureza humana de excepcional qualidade, pelo elevado nível de harmonia dos seus atributos físicos, mentais e morais. Por isso, em atenção à geração extraordinária deste homem, que é também Filho de Deus, Maria, sua mãe biológica, foi beneficiada com atributo extraordinário semelhante. Por isso se diz que foi «isenta do pecado original». A nós, que nascemos, como todos os homens, com uma tendência para o erro e o desvio moral, foi-nos, no entanto, concedida a mensagem salvadora de Cristo e a sua ajuda permanente através da graça. Por isso, também nós podemos de certo modo ficar «isentos», embora de maneira diferente.