sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

É DIA DE NATAL

No plano puramente humano a ideia de um salvador é universal e recorrente: quando um país está em crise política grave, pensa-se num homem forte, bom e competente, que venha salvar a pátria; nas empresas em grandes dificuldades, deseja-se que venha um gestor poderoso, que evite a falência e o desemprego; nos grupos de futebol mal classificados, espera-se que um novo treinador liberte a equipa do mau momento que atravessa. E assim por diante, em todos os aspectos da vida humana. Ora, nós hoje comemoramos o nascimento do Salvador por excelência, porque veio libertar toda a humanidade das suas agruras e dos seus pesadelos. Porquê Salvador, com este significado e esta amplitude? Porque a humanidade estava desorientada e perdida, sem saber de onde vinha e para onde caminhava, qual o seu presente e o seu futuro, qual o significado da vida humana. Tudo isto era consequência da sua limitação ontológica e da sua contingência existencial, que não lhe permitiam perceber a sua posição no universo e perante Deus, que apenas conheciam por sombras, de forma caótica, confusa e desordenada, própria do paganismo.

O nascimento de Jesus Cristo insere-se num objectivo grandioso, o de reconciliar os homens com Deus. Para isso, Deus revelou-se, manifestou-se, deu-se a conhecer como é em si mesmo, na sua essência única e nas suas Pessoas, e como é em relação aos homens, ou seja, como um Pai que a todos acolhe. Esta revelação espectacular marca uma viragem decisiva na história. Por isso, tem toda a razão de ser o facto de o calendário dos homens ter passado a ter como base, como referência, como ponto de chegada (Antiguidade) e como ponto de partida (era cristã) o nascimento de Cristo Salvador. Cristo é por isso o centro do mistério da vida humana.

No entanto, na nossa época parece haver uma certa crise cristológica. Para muitos homens, Cristo deixou de ser uma referência fundamental. Fala-se pouco de Cristo e da sua mensagem e fala-se mais da Igreja do que de Cristo. Mesmo para não poucos cristãos a referência cristológica tem vindo a diluir-se e a enfraquecer-se com a acumulação de hábitos, de práticas e de ritos em que Cristo não tem muito lugar. Parece por isso indispensável que a cultura e a piedade dos cristãos voltem a ser inteiramente cristocêntricas, como eram as de São Paulo, que, neste aspecto como em muitos outros, é um grande e seguro exemplo.