A recente reunião internacional de Copenhaga sobre o problema das emissões poluentes e os seus efeitos no aquecimento global terminou, como era previsível que terminasse, sem qualquer acordo vinculativo com programas temporais definidos. Quais virgens ofendidas, os estrénuos adeptos e defensores de medidas enérgicas para combater as acções poluentes vieram carpir as suas mágoas, lamentando-se amargamente do muito pouco que foi conseguido, sobretudo face às expectativas que, talvez exageradamente, foram sendo construídas nos meses que antecederam a cimeira. A atitude, por demais cautelosa, dos principais países, que são também os mais poluidores, baseou-se em vários pressupostos, que eram visíveis no horizonte. O primeiro pressuposto resultou da pressão desenvolvimentista muito forte que se faz sentir um pouco por toda a parte. No fundo, as pessoas desejam mais progresso e bem-estar, o que implica aumento da produção e do consumo, mesmo que, como mostra o exemplo chinês, à custa de fortes transtornos ambientais. Nos países com uma estrutura democrática de poder, acresce ainda o facto de os governos dependerem dos eleitores, que, como acontece porventura nos Estados Unidos, podem não estar facilmente disponíveis para aceitarem o que podem considerar uma desaceleração do seu específico processo de desenvolvimento («the american way of life»).
No entanto, na decisão tomada interferiram ainda outros pressupostos, cuja relevância é variável, mas que, de uma forma ou de outra, tiveram influência na posição adoptada pelos principais actores políticos. De facto, embora a corrente ecológica seja significativamente maioritária, não é unânime a opinião dos cientistas e especialistas sobre a correlação existente entre actividade humana e aquecimento global. Por outro lado, há manifestos receios de muitos responsáveis pelas consequências resultantes do acolhimento que fosse dado a certas propostas mais fundamentalistas sugeridas por movimentos que defendem de forma bastante exigente, nalguns casos mesmo radical, a preservação da natureza e a protecção do clima. Talvez o desejado acordo tivesse sido possível com menos calculismo e receio de um lado e menos retórica e radicalismo do outro lado.