quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

AINDA A PROPÓSITO DO CASAMENTO HOMOSSEXUAL

Os piores defeitos da inteligência humana são porventura a teimosia e a incoerência. Ora, o Governo acaba de mostrar pertinácia na aprovação do projecto de proposta de lei sobre o casamento homossexual (ver também aqui), que constitui um problema muito fracturante na sociedade portuguesa, quando ela devia neste momento estar mobilizada e unida no combate à crise estrutural da nossa economia, que vai manter-se ou mesmo agravar-se, depois de terminarem os efeitos da crise internacional. Por outro lado, a iniciativa legislativa do Governo evidencia até que ponto se deu a degenerescência do conceito de casamento, à revelia do seu significado natural e sociológico, que permanece desde sempre. Em tal perspectiva, o casamento vem a ser uma simples comunhão de afectos entre duas pessoas, qualquer que seja o sexo dos nubentes. Qualquer outro objectivo, como o de assegurar descendência, quer por via biológica (por geração), quer por meios jurídicos (por adopção) é completamente secundário, se não mesmo irrelevante.

É isto que está na lógica da decisão governamental de excluir daquele projecto a possibilidade de um casal homossexual poder candidatar-se à adopção. Esta opção traduz uma enorme hipocrisia e uma grave incoerência do Governo. Casamento será assim uma mera união, tendencialmente precária, de duas pessoas, do mesmo sexo ou não, de partilharem a sua vida, mas sem o compromisso, nem o ónus respectivo, de a estenderem a mais alguém. Tem-se afinal em vista, com este novo conceito de casamento, garantir que duas pessoas se constituam num casal apenas para se satisfazerem a si próprias, como é próprio de dois egoísmos conjugados, recusando a alegria e a generosidade de partilharem essa vivência com terceiros, mediante o alargamento da família através da descendência. Parece assim haver a intenção de estimular o amor-próprio de cada um, consagrar a auto-suficiência hedonística e premiar os que pensam que podem viver como ilhas, apenas debruçados sobre si próprios. Quanto ao «inverno demografico» de que falou o Presidente da República, isso não terá importância nenhuma. Na perspectiva do Governo, será apenas mais uma «rabugice» de Cavaco Silva.