sábado, 19 de dezembro de 2009

OS EQUÍVOCOS DO MULTICULTURALISMO - I

A Europa vive inquieta com os problemas da emigração, mesmo da que é feita por meios legais. Face a alguns fenómenos, quer de rejeição, quer de auto-exclusão, perante as dificuldades de integração de certos grupos de imigrantes e por força da crise económica, em que o desemprego atinge com particular severidade este grupo de pessoas, muitos se interrogam sobre qual será a melhor solução para um problema que se afigura cada vez mais complexo, sobretudo quando se trata de assegurar a integração dos imigrantes nos países de acolhimento através da cidadania. Nalguns países são os próprios Governos que sugerem determinadas soluções, que passariam por um maior grau de exigência nos processos de naturalização, que representa o culminar de quem imigra. Assim, na Alemanha pensa-se em definir tudo com mais precisão e amplitude nos chamados contratos de imigração, enquanto a França se interroga sobre como definir a identidade francesa.

Estas interrogações e estes movimentos desenvolvem-se, no entanto. num momento em que muitos defendem, embora com diversas cambiantes, a ideia de multiculturalismo na estrutura sociológica, jurídica e política dos países de acolhimento. Nesta perspectiva, alguns dos actuais problemas de integração praticamente não se poriam, pela simples razão de que o nível de integração seria reduzido, já que os imigrantes preservariam ao máximo as suas características sócio-culturais de origem. Contudo, bem vistas as coisas, com esta formulação os países de acolhimento ficariam sociologicamente tão fragmentados que tenderiam a transformar-se em simples federações de pequenas nações sou cantões, dissemelhantes entre si, definidos em função da sua diferenciação cultural, cujas principais componentes são de natureza étnica, linguística e religiosa ou têm que ver com práticas sociais específicas, muitas delas ligadas à religião. O efeito poderia ser desastroso. Quebrado um determinado nível de coesão sociológica e cultural, estaria igualmente quebrada a coesão jurídica e política, por efeito das forças centrífugas assim desencadeadas. Estaríamos então porventura a caminho de uma espécie de organização feudal, em que estas «parcelas acantonadas» do Estado se transformariam facilmente em focos de instabilidade social, de conflitualidade cultural e de desagregação política.