terça-feira, 29 de dezembro de 2009

A INADMISSÍVEL POLITIZAÇÃO DO NATAL

No meio do turbilhão de tantas coisas que tão rapidamente acontecem no dia a dia e por força da neblina informativa que muitas vezes envolve tais acontecimentos, a muitos pode ter passado despercebido o facto, já ocorrido em anos anteriores, de o Primeiro-Ministro ter vindo à televisão pronunciar uma «mensagem de Natal» dirigida aos portugueses. Quando paramos um pouco para reflectir sobre o que isto quer dizer, ficamos confusos e perplexos. Que tem o Primeiro-Ministro a ver com o Natal? Que significado pode ter uma mensagem natalícia vinda de quem detém o poder político e dirige um partido político (no caso, o Partido Socialista) que suporta o Governo? Como já vimos, existem hoje duas celebrações natalícias. Por um lado, há a celebração religiosa, que é a festa originária, genuína, hoje bastante minoritária, que celebra de forma activa e participada o nascimento humano de Jesus Cristo, Filho de Deus e Salvador da humanidade. Por outro lado, há a celebração secular, que actualmente predomina nas sociedades europeias, em que o nascimento de Jesus Cristo constitui um simples registo histórico de enquadramento, mas em que é a família o centro, único e exclusivo, das festas comemorativas.

Vistas bem as coisas, o Primeiro-Ministro não pode ter lugar em nenhuma daquelas duas formas de comemoração do Natal. Está sem qualquer dificuldade excluído da primeira modalidade (Natal religioso) por força das funções políticas que exerce. Mesmo que fosse pessoalmente um cristão convicto e praticante, não teria legitimidade institucional para o fazer. Mas está igualmente excluído da segunda modalidade (Natal secular), pois teria de falar sobre uma realidade, a família, que não lhe tem merecido especial consideração, por força das suas convicções ideológicas. De facto, o Primeiro-Ministro tem tomado decisões políticas enfraquecedoras da família, mesmo considerada no plano estritamente humano, em especial: a liberalização do aborto até às 10 semanas, que tem contribuído para o decréscimo da natalidade; a facilitação do divórcio, que originou maior conflitualidade familiar e mais processos nos tribunais; o projecto de proposta de lei sobre o casamento homossexual; a manutenção de graves lacunas nos equipamentos sociais de apoio à primeira e segunda infância, quando os recursos financeiros são desperdiçados em coisas menores.

O Primeiro-Ministro escolheu, porém, uma opção, que torna ainda mais abusiva e inadmissível, mesmo absurda, a sua pretensa «mensagem de Natal», pois deu à sua comunicação um conteúdo exclusivamente político e, mais do que isso, com contornos partidários, ou seja, numa perspectiva de facção, à revelia do que seria exigível nesta quadra natalícia e nesta fase difícil da vida do país, em que só um grande e sincero consenso interpartidário poderá ser a única solução que resta para que Portugal saia do plano bastante inclinado em que se encontra.