segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

OS EQUÍVOCOS DO MULTICULTURALISMO - II

O fenómeno da imigração e o problema da integração dos imigrantes devem ser encarados com prudência e realismo, sem atitudes preconceituosas nem pressupostos ideológicos, ao contrário do que evidenciam alguns movimentos que defendem o multiculturalismo (ver aqui). Ora, quem imigra é «obrigado», pela força natural das coisas, a fazer alterações mais ou menos substanciais na sua vida, já que muda ou pode mudar de país, de língua de trabalho, de profissão, de relações sociais, de regime de estudos e de formação profissional, de ambiente político, de ordenamento jurídico, de enquadramento administrativo, de acesso a meios de comunicação social e de muitas outras coisas. Face a esta nova realidade com que se confronta, a tendência natural do imigrante será para conseguir a maior integração possível, ou seja, para aceitar a maior mudança possível da sua forma de viver, pois a alternativa será permanecer em comunidades fechadas, que reproduzam o mais possível o seu estilo de vida anterior no país de origem. Estas comunidades fechadas correm, porém, o risco de se transformarem em verdadeiros guetos, como já hoje existem em várias sociedades europeias.

Se analisarmos bem o que na realidade se passa, reparamos que os problemas de integração se põem sobretudo em relação aos imigrantes muçulmanos, qualquer que seja a sua nação de origem, pela especificidade da forte interrrelação que existe entre cultura, práticas sociais e religião. De facto, a religião muçulmana tende a ser totalista, colectivista, ou seja, a enquadrar e regular todos os aspectos da vida, nos domínios individual e colectivo, das pessoas, das famílias, das escolas, dos grupos sociais e profissionais e até mesmo da acção política. Por isso, para além dos procedimentos estritamente religiosos, mesmo estes com particularidades, como acontece com o chamamento público para as orações diárias rituais feito nos minaretes das mesquitas, o islamismo pode implicar práticas sociais específicas, que tendem a ser diferenciadoras. É o que acontece com restrições, condicionamentos ou imposições na alimentação, no vestuário e nas relações sociais. É por isso que o uso de véu pelas mulheres aparece com tanta relevância. Ora, estas práticas, que por vezes são tão ostensivas que aparecem como provocatórias, implicam naturalmente a diferenciação e o desajustamento sociais. É neste ambiente que surgem sentimentos de ressentimento social, que estão na base de desconfianças que podem dificultar a integração social.