quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

A ORIGEM DAS ESPÉCIES

Fez no passado dia 22 de Novembro 150 anos que Charles Darwin publicou a sua obra prima, que tanto impacte causou desde então, de tal maneira que os ecos da polémica então surgida ainda não se extinguiram. O que antes de mais impressiona na publicação desta obra científica profundamente inovadora é o facto de ela ter ficado em condições de ser editada alguns anos antes. Porquê então o o compasso de espera que se verificou? Tratou-se de uma atitude de extrema prudência de Darwin, não quanto à sua convicção sobre a razão de ser e a solidez das conclusões a que chegara sobre a evolução das espécies, mas por causa da enorme pressão social e cultural envolvente, na altura ainda fortemente dominadora e exclusivista, que o fez recear, com sérias razões, os efeitos perversos que tal publicação poderia implicar, como que resto veio a provocar.

Essa pressão provinha, afinal, de convicções religiosas profundamente arreigadas e rigidamente estratificadas, na Igreja e na sociedade, por força do entendimento, estritamente literal e fechado, dado à narrativa bíblica constante do Génesis sobre a criação do universo e do homem, donde proveio a doutrina criacionista, tal como foi concebida e aplicada ao longo dos séculos. Os estudos bíblicos, tal como hoje são praticados, ainda não tinham permitido entender e interpretar, segundo as várias técnicas entretanto desenvolvidas, um texto que, sendo considerado sagrado, era tido também como absolutamente intocável na sua letra, já que esta exprimia a própria palavra divina. Esta perspectiva criou uma fortíssima barreira intelectual e cultural que parecia intransponível, pois a passagem desta fronteira determinava a saída da ortodoxia e esta implicava várias formas de exclusão cultural e cívica.

Pode parecer estranho, mas a doutrina criacionista estrita do ser humano, tal como figura no texto bíblico, sem qualquer concessão ao princípio evolucionista, consta ainda do Catecismo oficial da Igreja Católica, publicado em 1993. Não deixa de ser perturbador que assim se pretenda negar a possibilidade de que a própria evolução das espécies possa ter sido um instrumento de Deus na sua obra da criação. Deste modo, o homem, na sua pequenez e limitação ontológica, pois é um ser finito e contingente, parece querer condicionar a infinita capacidade de Deus, a quem tudo é possível, até criar o mundo segundo o princípio da evolução. Ou seja, por decisão dos homens, o próprio Deus fica prisioneiro dos textos da Bíblia, tal como os homens os interpretam, invocando, aliás, o nome do mesmo Deus. De certo modo, pode dizer-se que os homens cedem à tentação, tão frequentemente verificada na história dos conflitos religiosos, de se «apropriarem de Deus», enclausurando-o nos seus próprios quadros mentais.