quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

É VÉSPERA DE NATAL

Todos temos consciência de que, estando as sociedades europeias muito secularizadas, não deve causar admiração que até as festas religiosas mais profundamente cristãs, como o Natal, tenham sofrido também uma mutação qualitativa. Essa secularização foi-se desenvolvendo de forma tão insidiosa que muitos de nós tendemos a já não dar bem conta do que se passou para que as coisas tenham passado a ser diferentes. São característicos os rituais deste «Natal secular», que é também um feriado civil: a) a omnipresença dessa extravagância cultural e sociológica que é o Pai Natal, figura inócua e vazia, cuja mensagem materialista assenta no consumismo individualista e que veio substituir o tradicional Menino Jesus; b) a árvore do Natal, que em muitos lugares e famílias ocupa o lugar onde outrora esteve o presépio, c) a troca de mensagens natalícias tão estereotipadas e repetitivas, que até empresas e instituições de toda a ordem as utilizam, por vezes de forma «industrializada» e impessoal; d) a reunião das famílias, a sua confraternização e a troca de presentes, quantas vezes com excessos e despesismo excêntrico, mas sem qualquer enquadramento transcendente.

No entanto, devemos reconhecer que permanecem muitos aspectos positivos nestas práticas secularizadas, a exprimir o seu sentido cristão ancestral, que não foi completamente apagado. É o caso da convivência das famílias, que favorece o fortalecimento dos laços familiares, o que é importante numa altura em que a família, como instituição, parece estar em crise. Do mesmo modo, a troca de presentes faz recordar a muitos os deveres de generosidade e de solidariedade, de compreensão e de ajuda. Por outro lado, tem-se assistido em muitas famílias à retoma da experiência do presépio, que constitui a representação plástica e artística mais genuína do Natal. Finalmente, o período do Natal é propício ao desenvolvimento de numerosas manifestações de solidariedade para com os mais desfavorecidos, traduzidas, por exemplo, na acção do Banco Alimentar e em numerosas ajudas específicas aos mais pobres e desamparados, incluindo os sem abrigo.

Tudo isto faz-nos crer que, afinal, o Menino Jesus não foi posto de lado, mas que apenas pode estar um pouco escondido ou então é mostrado de forma envergonhada. Por isso, parece legítimo reter a esperança de que, afinal, talvez a secularização seja apenas exterior e social. No interior de cada um permanece porventura o essencial do que aprendeu na infância ou mais tarde, no decurso da vida: chegou o Deus Menino, a partir de agora temos um Salvador.