terça-feira, 1 de dezembro de 2009

UM FERIADO NACIONAL ENVERGONHADO

Portugal parece por vezes um país algo estranho, pois aparenta ter receio de afirmar colectivamente, de forma frontal e visível, sem ambiguidades, a sua individualidade e independência como nação soberana com mais de oito séculos. De facto, neste Dia da Restauração quase não há comemorações ou estas são feitas de certo modo às escondidas, de forma envergonhada, como se constituíssem uma ofensa para alguém. Aliás, não se trata de situação única. O próprio Dia de Portugal, celebrado a 10 de Junho com a pomposa e prolixa denominação de Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, não festeja, afinal, o dia em que se deu a declaração ou o reconhecimento da independência do país. Esse dia poderia ser uma de várias datas possíveis do reinado de D. Afonso Henriques, que exprimissem o facto de o reino de Portugal ter passado a ser um novo país soberano. Ora, sem a independência pela qual lutou arduamente o nosso primeiro rei não teríamos tido os descobrimentos e a expansão ultramarina, tal como se desenvolveram, à portuguesa, como gesta nacional que Camões tão brilhantemente celebrou nos seus versos incomparáveis. Sem D. Afonso Henriques poderia não ter havido Camões.

Esta relativa timidez, que até pode ser vista como um complexo, não propriamente do povo, mas da classe política e de algumas elites, em afirmar a autenticidade da nossa autonomia específica como país pode ter que ver com uma estranha atitude (de subtil subordinação?) para com a nossa vizinha Espanha, que de certo modo é tradicional em certos meios. Uma tal atitude manifestou-se no final do século XIV, quando da crise política que deu origem à dinastia de Avis e ocorreu de novo na crise de 1640, que hoje comemoramos, de onde emergiu a dinastia de Bragança. Em tempos mais recentes, apercebemo-nos de que há outros afloramentos desta tendência, como o sonho da Ibéria unida, tão do agrado de alguns intelectuais, o facto de serem maximizadas as relações económicas com Espanha, mesmo à custa de outros interesses nacionais relevantes, bem como a timidez, que roça a cobardia, como nos temos posicionado ao longo dos anos relativamente a Olivença, em que existe um tratado internacional a nosso favor, em flagrante contraste com a posição espanhola em relação a Gibraltar, em que, pelo contrário, o direito internacional favorece a Grã-Bretanha.