domingo, 6 de dezembro de 2009

SIMPLESMENTE CRISTÃOS?

Há na história da Igreja dois momentos cruciais que configuram a indizível tragédia da perda da unidade, fruto da incompetência e do orgulho dos homens responsáveis por esse desfecho, pois não souberam ser humildes, além de lúcidos, prudentes, esclarecidos e corajosos. Esses momentos são, no século XI, o ano de 1054, quando se deu a cisão entre cristãos ocidentais e orientais (igrejas ortodoxas), e, no século XVI, o ano de 1521, data da definitiva ruptura de Martinho Lutero, quando ocorreu a grande cisão dos cristãos ocidentais, que levou à criação das igrejas reformadas ou evangélicas, nas suas três grandes correntes (luterana, calvinista e anglicana). Com estas rupturas trágicas deu-se um fenómeno estranho: deixou de haver formalmente cristãos, pois os diferentes grupos religiosos passaram a ser simplesmente designados como católicos, ortodoxos e protestantes ou evangélicos. As próprias denominações das Igrejas que congregam estas diferentes comunidades não comportam a expressão «cristã». Por isso, falamos sempre em Igreja Católica sem nos apercebermos da lacuna paradoxal que comporta esta designação.

Deste modo, passou a usar-se a linguagem adjectiva, que privilegia o que secundariza e divide, em detrimento da terminologia substantiva, que une e aproxima, que constitui o maior denominador comum. Isto diz bem da amplitude e profundidade dos dramas das divisões operadas com aquelas rupturas históricas, até porque a elas estiveram associados conflitos políticos e até militares. Assim, enquanto outrora o lema distintivo de um cristão consistia em se declarar como tal («christianus sum»), usando explicitamente um nome que evoca imediatamente Cristo, que constitui o todo, agora a identificação é feita pelas partes ou facções em que se encontra dividido o cristianismo. Não deixa de ser estranha esta prática em que as confissões cristãs omitem nas suas próprias designações o elemento fundamental que as aproxima e em que radica a própria essência do cristianismo, a crença em Jesus Cristo, Filho de Deus e Salvador dos homens. Por isso, seria bom que passássemos a usar as expressões cristãos católicos, cristãos ortodoxos e cristãos evangélicos (protestantes). Não parece suficiente a expressão «cristão» estar apenas implícita, de qualquer modo sempre escondida, como que envergonhada.