domingo, 27 de dezembro de 2009

O DIA DA SAGRADA FAMÍLIA

Numa sociedade extremamente secularizada como a nossa, em que tudo é relativo e não há muito lugar para o que é transcendente, com que olhar é considerada a Sagrada Família, que a Igreja celebra no dia de hoje? Nesta perspectiva, que enquadramento pode ter a família de Nazaré, constituída por Jesus, Maria e José? É possível que a denominação de Sagrada Família seja aceitável, mas apenas como registo histórico do cristianismo, enquanto realidade cultural e sociológica que ao longo dos séculos moldou os traços fundamentais das sociedades europeias. Este entendimento, frio e distante, não provoca nenhuma emoção especial, nem implica qualquer apelo personalizado. Pessoalmente, não somos «tocados» pelo facto. É radicalmente diferente a perspectiva cristã da Sagrada Família. Isto significa que quando falamos hoje, por força do hábito, de Portugal «tradicionalmente cristão», esquecemo-nos de que há uma fronteira radical que atravessa o país. Não devemos ter medo de o admitir, nem vergonha de o declarar.

O carácter sagrado da família onde Jesus nasceu e se fez homem apresenta duas facetas. Em primeiro lugar, esta família é sagrada em si mesma, pois nela se formou Jesus Cristo, o Filho do Homem, Salvador da humanidade, uma única pessoa com o Verbo de Deus, enquanto eterna projecção ontológica do Pai. Em segundo lugar, esta família é sagrada porque é o modelo de todas as famílias cristãs. Neste sentido, também a família cristã deve ser considerada sagrada. É aqui que passa a fronteira radical acima referida. É sagrada por uma razão formal, já que o vínculo matrimonial decorre de um rito sacramental, que tem o selo de Deus, como instrumento de apoio permanente aos esposos na árdua tarefa de constituir, manter e desenvolver a família. Mas é igualmente sagrada por uma razão material, face ao objectivo que lhe é assinalado: concretizar os planos de Deus na geração de descendência («crescei e multiplicai-vos e enchei a terra») e no processo de formação de novos seres humanos, não apenas como homens e mulheres, mas também como cristãos e amigos de Deus.