É possível, como se viu noutro lugar, qualquer homem, através da razão natural, ter a percepção de Deus e sentir esse Alguém como o Outro, a quem se pode dirigir. Porém, o Deus cristão, que é um Deus da fé, que se revelou a si mesmo, através de Jesus Cristo, fez entrever o profundo mistério que o caracteriza, de ser Uno e ao mesmo tempo se manifestar em três Pessoas distintas. Ora, o que há de mais inovador e tocante na mensagem cristã é a revelação de que este Deus é um Pai para os homens. Este extraordinário estatuto paternal maximiza a acessibilidade de Deus e a sua permanente disponibilidade para nos ouvir e atender, eliminando assim tantos estereótipos, vindos do Antigo Testamento, que davam de Deus a imagem de um ser distante, frio, severo, normativo, controlador e justiceiro. Falar com Deus tornou-se assim simples e fácil, na base de uma confiança autenticamente filial. Esta perspectiva tão atraente suscita, no entanto, algumas interrogações sobre certos hábitos que com o tempo se foram enraizando na piedade cristã.De facto, ao longo dos séculos têm-se sucedido diversas formas e práticas de o cristão se dirigir a Deus, desde as simplesmente individuais, até às mais espectacularmente colectivas, como as grandes procissões, que por vezes contêm complexas representações cénicas. Estas práticas baseiam-se sobretudo em formulários e rituais, com esquemas preestabelecidos de orações, que podem em muitos casos ter enfraquecido o sentido da relação filial com Deus e as suas Pessoas. Deste modo, os cristãos, em vez de falarem com Deus aberta e espontaneamente, como quem conversa com um bom amigo, cada um à sua maneira, mas com naturalidade e sinceridade, de forma genuinamente pessoal, recitam frases que foram escritas por outros, com a sensibilidade que é própria de cada um. Por isso, tais práticas podem originar uma relação com Deus mais formal e impessoal, numa perspectiva mais de submissão do que de confiança verdadeiramente filial. São estas imagens, hoje tão facilmente disseminadas pelas televisões, de formalismos rituais e de práticas exteriores, que podem levar muitos não cristãos a ter uma percepção deformada ou errada do que é «ser cristão».