segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

O REFERENDO SUÍÇO SOBRE OS MINARETES

Quem diria que a civilizadíssima Suíça iria aprovar, por forte maioria (57,5% dos votos e mais de três quartos dos cantões), em referendo, a introdução de uma emenda constitucional que proíbe a construção de minaretes nas mesquitas? Uma tal decisão causou espanto a alguns e indignação a outros e deu origem a críticas vindas dos mais variados sectores, entretanto esquecidos de que o funcionamento da democracia comporta exactamente este tipo de riscos, ou seja, o de haver escolhas erradas. De certo modo, pode dizer-se que as questões que levaram ao referendo parecem incompreensíveis, pelo que a única explicação, mesmo assim problemática, para o que aconteceu, é haver na sociedade suíça um medo profundo e difuso ou um certo sentimento de ameaça ou insegurança face à agressividade que alguns sectores do islamismo têm evidenciado, bem como às dificuldades sociológicas de integração de muitos muçulmanos nas sociedades europeias.

Convém recordar que os próprios minaretes constituem hoje um anacronismo histórico. De facto, eles provêm de uma época e de uma região (a Arábia dos séculos VII e VIII), quando o islamismo iniciou a sua grande difusão, em que não havia praticamente relógios, pelo que era necessário fazer o chamamento dos fiéis para as cinco orações diárias rituais. A altura dos minaretes impunha-se como forma de facilitar o anúncio oral, a fim de este ser ouvido pelo maior número de fiéis. Afinal, tradicionalmente as igrejas cristãs também utilizavam os seus sinos, colocados em torres elevadas, para anunciar o início das solenidades religiosas. Hoje tal método de chamamento já não é necessário, pelo que a prática tem caído em desuso. Os muçulmanos, que são, por formação, mais conservadores, têm tido mais dificuldade em se adaptarem aos novos tempos.

Deste modo, em termos de bom senso e de respeito pela liberdade de expressão religiosa, a existência dos minaretes só poderia ser encarada, não em si mesmos, como aconteceu, mas em dois aspectos instrumentais, compatíveis com a religiosidade muçulmana e com o modo de viver dos suíços. Por um lado, os minaretes muito altos podem tornar-se inestéticos e chocar com a harmonia urbanística pretendida. A solução está ao alcance de qualquer câmara municipal, que tem competência pra regular a altura das edificações e o seu enquadramento urbanístico. Por outro lado, os minaretes podem tornar-se barulhentos sempre que os muezins chamem os fiéis (sem necessidade, aliás, dada a generalização actual de uso de relógios) utilizando os modernos meios de amplificação sonora. Mas também aqui há ou pode haver solução fácil, através da aplicação de leis reguladoras do ruído, tanto em em locais públicos como privados.