sexta-feira, 23 de abril de 2010

AINDA AS REMUNERAÇÕES DOS GESTORES

Um dos argumentos utilizados pelos que acham perfeitamente bem ou, pelo menos, sem merecer qualquer reparo, a fixação das remunerações e dos bónus dos gestores das grandes empresas em níveis elevadíssimos, mesmo que pareçam desproporcionados e fora daquilo que o simples bom senso considera razoável, baseia-se em algo que parece simples de entender: a economia de mercado tem como fundamento a liberdade de empreendimento e decisão empresarial. É um argumento interessante e aparentemente atractivo, mas que, quando analisado com cuidado, se revela enganador.

No exercício da liberdade individual não basta ter em conta formalmente as liberdades dos outros indivíduos. Nesse aspecto, um salário milionário não colide com um salário de miséria, pois um e outro podem ser o simples resultado do diferente uso da liberdade de empreendimento económico, ou seja, entre ter sucesso ou fracasso na actividade económica. Porém, logo aqui surge uma interrogação séria: teve cada um daqueles trabalhadores (o rico e o pobre) o mesmo tipo e o mesmo grau de oportunidades? Mas há mais. O exercício da liberdade na actividade económica é balizado por outros grandes princípios, que definem o seu enquadramento ético e exprimem as exigências do bem comum e da justiça social.

Foi em nome daquele conceito, desbragado e ilimitado, de liberdade económica que foi gerada nalguns sistemas financeiros internacionais a actual crise, que agora a todos aflige. De facto, foi em nome dessa alegada liberdade que se entrou num terrível círculo vicioso de gestão empresarial. Assim, os gestores, com a ambição de serem mais bem remunerados, propuseram-se alcançar metas exageradas ou pouco realistas, para obterem mais lucros. Por seu turno, os accionistas, com a ambição de obterem mais dividendos e indiferentes aos riscos associados a algumas das medidas propostas, concordaram em aumentar cada vez mais as remunerações dos gestores, até que se entrou numa espiral sem qualquer freio, numa verdadeira vertigem, como se viu.

Como a ideia de liberdade empresarial, assim maximizada, não foi temperada por nenhum conceito ético baseado no reconhecimento da ideia de bem comum, as disparidades salariais aumentaram brutalmente em muitas empresas e atingiram níveis que ferem a noção de medida ou de proporção e contraria a simples exigência de bom senso. Tudo isso, como é evidente, pôs também a descoberto uma elementar falta de decoro. Os resultados estão à vista: alargamento do fosso entre ricos e pobres, agravamento das desigualdades sociais, injusta sobrevalorização do trabalho de uns em detrimento da subvalorização do trabalho de outros e, como corolário, um indiscutível aumento do ressentimento social que, como sabemos, está na génese de todos os conflitos sociais.