Hesitei muito antes de avançar com uma reflexão pessoal sobre este tema tão delicado, melindroso e perturbador, que, esclareço, para quem não me conheça, não me diz pessoalmente respeito. Acabei por me abalançar a fazer este registo por uma questão de sensibilidade pessoal a três pressupostos: por um lado, a percepção que penso ter da magnitude (imensidade) da bondade e da misericórdia de Deus, que se manifesta, antes de tudo, como um Pai, mais do que como um Deus normativo ou um Deus justiceiro implacável; por outro lado, a força da pressão objectiva exercida pela existência de muitas angústias e frustrações individuais, de significativos dramas pessoais e de inúmeros abandonos de prática religiosa daí resultantes; finalmente, a convicção de que o silêncio, como noutros problemas que actualmente afligem a Igreja, só agrava a realidade que lhes está subjacente.Admito que tal hesitação possa ter resultado de vários receios naturais, que creio serem compreensíveis: o de não conseguir exprimir bem o meu pensamento nesta matéria tão sensível, o de eventualmente não ser bem compreendido ou correctamente interpretado ou, pior ainda, o de porventura ser acusado de estar, ainda que sem querer, a pôr um pé fora da ortodoxia estrita.
O problema que, sem exagero, se pode considerar dramático, doloroso, mesmo pungente, para muitos católicos casados pela Igreja e entretanto divorciados, surge quando se casam novamente, o que só pode acontecer através do matrimónio civil. Como a doutrina da Igreja considera que o sacramento do matrimónio é indelével, logo permanente, irrevogável, perpétuo, este segundo casamento civil coloca os cônjuges numa situação objectivamente irregular de concubinato, cuja gravidade determina a suspensão do acesso a outros sacramentos, designadamente a eucaristia ou comunhão. Não sei se é fácil imaginar e se é possível compreender os pesados dramas de consciência que podem resultar desta situação e, desse modo, ouvir os lancinantes e silenciosos apelos dela emergentes. Veremos nas próximas reflexões.