quarta-feira, 30 de setembro de 2009

FAZER POLÍTICA É REPRESENTAR?


A acção política e governativa implica, por natureza, sobretudo em democracia, a comunicação e o diálogo, feitos através do discurso. Simplesmente, discursar não é o mesmo que declamar ou representar, embora na prática pareçam por vezes confundir-se, como se fossem a mesma coisa. Quando assistimos a uma peça de teatro ou a um filme, sabemos que os actores não estão a actuar como fazem no seu dia a dia, enquanto simples cidadãos. Estão a representar, isto é, a desempenhar o papel de outrem, assumindo, quanto possível, a sua história, a sua personalidade, o seu estilo de vida, a sua maneira de ser e de agir, o seu modo de falar e muitas outras coisas. No fundo, como faziam os antigos gregos, estão a usar uma máscara, a do personagem que representam.

Hoje em dia é cada vez mais frequente assistirmos a algo de semelhante na acção política e governativa. Sentimos com frequência que os discursos e mesmo as actuações dos políticos não correspondem ao que no fundo realmente são, mas a determinado papel que por razões de imagem, marketing e prática política se considerou que devem adoptar. Esta situação pode levantar problemas importantes de inteligibilidade, identidade e credibilidade. O que os políticos dizem é mesmo verdade, vem, como diz o nosso povo, do fundo do coração? O que fazem exprime uma atitude de sinceridade ou é apenas fruto de encenação, de elaboração mediática ou de considerações oportunísticas? Podemos confiar na imagem elaborada que nos é apresentada ou precisamos de descobrir (como?) a verdadeira e genuína personalidade do «actor político», com que nos confrontamos?

Esta duplicidade de posições e de personalidades (as que são naturais e as que são fruto da representação) é bastante perturbadora e pode muito bem ser uma das causas do alegado desprestígio da classe política, de que por vezes se fala, em geral, e de alguns políticos mais mediáticos, em particular. Mesmo que gostemos de os ouvir, sobretudo se a representação for boa, bem encenada, ficamos porventura com o sentimento amargo e frustrante de que falta qualquer coisa de fundamental, a autenticidade. No entanto, como se tem visto, o «bom povo português» parece apreciar este tipo de políticos. Será porque o próprio país vive, em geral, há já algum tempo, envolvido em cenários, individuais e colectivos, desfasados da dura realidade?