segunda-feira, 28 de setembro de 2009

O PAÍS A CAMINHO DO BLOQUEIO POLÍTICO?

O facto de quase 19% do eleitorado português ter votado nas últimas eleições legislativas em partidos da esquerda radical (BE, PCP e pequenos partidos sem representação parlamentar) constituirá um drama? Bem, é uma realidade, que como tal deve ser considerada e analisada, mas não deixa de ser uma realidade problemática e perturbadora. Aparentemente, pode parecer que está de regresso o período inicial da década de 1980, embora as circunstâncias sejam diferentes em muitos aspectos, pelo que as explicações também não podem ser as mesmas. De qualquer modo, uma tal situação parece evidenciar a persistência de problemas económicos e sociais sérios, que não foram a seu tempo resolvidos, a alteração do quadro dos valores de referência da sociedade, a par da emergência de novas questões relevantes para a economia e os diferentes grupos sociais.

Antes de mais, parece haver um problema cultural e político, sobretudo por não se ter verificado em Portugal uma evolução semelhante à ocorrida nos demais países da Europa do Sul, como a Espanha, a França, a Itália e mesmo a Grécia, em que os partidos de inspiração marxista-leninista perderam de modo significativo importância eleitoral e influência política ao longo das últimas décadas, em especial após a queda do muro de Berlim em 1989.

No futuro, a situação político-partidária e algumas dificuldades de governabilidade do País podem vir a apresentar certas semelhanças com o que durante décadas se verificou na Itália do pós-guerra, em que o grande peso eleitoral do Partido Comunista Italiano e o seu afastamento institucional do chamado «arco da governação» inviabilizou uma efectiva alternância no poder, ao qual a Democracia Cristã ficou ancorada sem concorrência séria, mas com a responsabilidade de governos relativamente frágeis, até à implosão do partido, que modificou profundamente o quadro político-partidário italiano.