O facto de em termos sociológicos o país tender a votar maioritariamente em partidos de expressão socialista, como voltou a acontecer nas eleições de ontem, traduz em geral uma certa proximidade ou mesmo alguma identificação entre os valores dominantes na sociedade e as orientações ideológicas e políticas desses partidos. Assim, por exemplo, um certo relativismo e uma determinada abertura quanto à natureza e aos objectivos das relações familiares são enquadrados, como resposta partidária, por propostas e orientações políticas que facilitam o divórcio, o aborto, as uniões de facto e as relações homossexuais.
Por outro lado, o desejo, amplamente disseminado na sociedade portuguesa e que configura as ideias e as aspirações de muitas pessoas e grupos sociais, de que o Estado esteja o mais possível presente na vida colectiva (em apoios, subsídios, ajudas, comparticipações, estímulos financeiros, créditos bonificados, isenções, promoções de iniciativas, feitura de leis «à medida», até mesmo simples eventos internos das empresas) é enquadrado, como resposta partidária, por orientações políticas que favorecem e promovem uma generosa e permanente presença e participação do Estado em tudo quanto mexe na economia e na vida social. Isto significa que se encontra disseminada, de forma dominante, uma «cultura socialista».
Nesta perspectiva, muitos cidadãos e não poucas empresas gostam de se ver aconchegadas pelo Estado, até porque isso tende a diminuir a sua margem de risco, embora seja susceptível de limitar, de forma directa ou indirecta, a sua capacidade de livre iniciativa, a sua liberdade de empreendimento ou mesmo, eventualmente, quem sabe, a sua liberdade de expressão. É a visão optimista do Estado amigo e protector, uma espécie de Estado paizinho, bondoso, compassivo e omnipresente que, em contrapartida (nada é gratuito) apenas pede coisas «simples», como a contemporização perante as práticas políticas, o respeito pelo poder, mesmo quando é exercido, de modo abusivo, por caminhos ínvios, e a aceitação de formas discretas e subtis de obediência, porventura mesmo de alguma subserviência.