Após a realização inédita de dez debates televisivos entre os líderes dos partidos com assento na Assembleia da República, em que os diversos programas apresentados ao sufrágio foram, de uma maneira ou de outra, objecto de alguma análise, poderia ter parecido que estavam criadas as condições para que a campanha eleitoral seguisse um rumo diferente daquele que na realidade se verificou, não centrada nos objectivos programáticos e na discussão séria dos problemas que afectam os portugueses. Em vez disso, a que assistimos nós?
Ouvimos frequentes vezes discursos demagógicos e populistas, a fazer lembrar os velhos tempos do «bacalhau a pataco». Assistimos a numerosas formas de encenação teatral, a coreografias partidárias artificiais e a truques mediáticos. Sentimos a força insuportável da repetição das frases feitas e das palavras marteladas. Observámos golpes baixos contra adversários políticos, com acusações, insultos e insinuações, sem falar no extraordinário chamamento, feito com dramatismo, do fantasma de Salazar, bem como ataques pessoais para além do que é admissível na luta política, mesmo que muito renhida. Demos conta da forma altissonante como foi feita a distorção deliberada e abusiva de aspectos parcelares dos programas dos partidos adversários. Enfim, tivemos a penosa sensação de que o povo português foi tratado, não como uma comunidade de homens livres, mas como um rebanho amorfo que precisa de ser pastoreado com mão forte.
Para que esta amarga sensação ficasse completa e se tornasse mais sombria e preocupante, também assistimos, porventura estupefactos, ao modo como, muitas vezes, as estações de televisão trataram jornalisticamente as sessões da campanha eleitoral. Também aqui ocorreram acontecimentos surpreendentes e nada edificantes. Umas vezes foram acentuadas e exageradas ocorrências marginais e acessórias, algumas histriónicas, do dia a dia da campanha. Outras vezes foram ouvidas pessoas que pareciam escolhidas a dedo para transmitirem a ideia do eleitor coitadinho, atrapalhado, mal informado ou simplesmente estúpido. Finalmente, o que foi mais angustiante, ouvimos relatos subjectivos dos jornalistas, em que em vez da descrição exacta e isenta dos factos, das ocorrências e das palavras dos candidatos, ou seja, da realidade, ouvimos opiniões e comentários puramente pessoais, por vezes tendenciosos ou mesmo depreciativos. Não é essa manifestamente a missão de quem tem o dever de informar, ainda por cima tratando-se da eleição dos representantes do povo português ao parlamento nacional.