A semana que hoje começa foi escolhida pela Igreja como um período de «oração pela unidade dos cristãos». Aparentemente, não parece possível ou, pelo menos, razoável pedir a Deus simplesmente que conceda a unidade há muito quebrada, pois a desunião, acontecimento histórico de extrema gravidade, foi exclusivamente obra dos homens. De facto, os dirigentes e responsáveis, tanto religiosos, como políticos, estes quando estiveram envolvidos, não souberam, em dois momentos cruciais do cristianismo, nos séculos XI e XVI (ver aqui), impedir as rupturas que então se verificaram, por se terem deixado enredar nas armadilhas tecidas pelo orgulho intelectual e pela ambição de poder e domínio. Desde então Deus espera, pacientemente, que, desfeita a desunião, volte a unidade. Assim, aquela oração só pode apresentar sentido se tiver como objectivo suplicar a Deus que ilumine os actuais responsáveis e dirigentes das diferentes igrejas cristãs. Essa iluminação implica que saibam desfazer o que então foi feito, ou seja, actuar ao contrário: por um lado, agir com humildade e sentido de autocrítica (coisa difícil de fazer), em vez de com orgulho; por outro lado, mostrar total disponibilidade para apenas servir, ainda que sem poder ou com pouco poder, e não para ser servido, através do exercício do poder (ver também aqui).
No entanto, o problema da «unidade dos cristãos» levanta uma grave questão prévia, que não tem sido muito debatida: de que unidade (jurídica, disciplinar, organizativa, teológica, litúrgica ou interpretativa das Sagradas Escrituras) estamos a falar? Que se quer significar com esta palavra «unidade»? Para alguns, designadamente entre os católicos, a unidade não significará unicidade? De facto, podemos entender a expressão em muitos e variados sentidos. Provavelmente cada uma das actuais confissões cristãs atribui-lhe um sentido próprio, diferente, pelo que a desunião começa logo aqui, à cabeça do debate. Sem esta definição prévia, tudo o que se disser sobre a união dos cristãos é pouco mais do que retórica, que é um modo de comunicar que infelizmente também se manifesta no domínio do sagrado.
As diferenças entre as confissões cristãs, agravadas e consolidadas ao longo dos séculos, são nalguns domínios de tal amplitude e profundidade e apresentam tal diversidade, estão por vezes de tal modo ancoradas em posições rígidas estratificadas, que é lícito levantar as maiores reservas quanto à possibilidade real de se conseguir o objectivo da unidade, mesmo que mínima. Seria preciso saber previamente até que ponto pode cada uma das igrejas ceder para que as diferenças pudessem ser, a partir daí, mais facilmente atenuadas. Será isto possível? Uma tal metodologia significaria porventura retroceder até ao século X, ou seja, até ao momento em que a cristandade se encontrava formalmente unida, embora, é bom lembrar, não unificada. Será possível um retorno com esta amplitude?