Praticamente todos os dias assistimos a grandes movimentações dos membros do Governo, que participam nos mais variados eventos, a maior parte dos quais sem relevância suficiente para ocupar durante tanto tempo quem tem a seu cargo tarefas tão pesadas, difíceis e exigentes, como são as de governar o país nas actuais condições de grandes dificuldades (ver também aqui). Facilmente nos apercebemos de que tais deslocações ministeriais são um mero pretexto para os membros do Governo serem vistos nas televisões e serem ouvidos em comunicações pontuais, visto que, em regra, são interpelados pelos jornalistas à entrada ou à saída de tais eventos.Isto significa que esses acontecimentos não valem por si mesmos, já que muitas vezes são vulgares, corriqueiros ou secundários, mas valem, e muito, porque representam um palco mediático sempre apetecido, e proporcionam uma oportunidade de encenação, em que se transformou grande parte da comunicação política. Claro que as declarações governamentais feitas em tais circunstâncias, pelas suas características de ocasionalidade e brevidade, não sujeitas a escrutínio nem a contraditório, são afinal simples momentos de auto-afirmação, ou seja, de mera propaganda.
Ao mesmo tempo, vemos que os membros do Governo não têm o saudável hábito, frequente noutros países com mais vivência democrática, de realizarem verdadeiras conferências de imprensa, em que, além da oportunidade de transmitirem a sua informação política, teriam o ensejo de responder às questões, cómodas ou incómodas, dos jornalistas. Só deste modo o país poderia ficar adequadamente esclarecido. No entanto, sentimos que os responsáveis políticos fogem das conferências de imprensa como o diabo da cruz. Porque será? É manifesto que têm medo de enfrentar o contraditório, pois estão habituados a encarar as suas comunicações de formas unidireccional, não como informação sincera e objectiva aos cidadãos ou como debate transparente e esclarecedor, mas como uma simples oportunidade de fazerem propaganda, de transmitirem a «verdade oficial». Em geral, os políticos no nosso país vivem dominados, talvez mesmo obcecados, pela propaganda, que é fácil, não já pela informação, que é difícil e pode ser penosa e incómoda, como o é a própria verdade.