sábado, 16 de janeiro de 2010

O PIOR CEGO É O QUE NÃO QUER VER

Quando da decisão de construir ou remodelar vários estádios de futebol, em número superior ao necessário, para a realização do Euro 2004, vários economistas, políticos e outros responsáveis, que tiveram a preocupação e o bom senso de fazer contas e estudar os números, chamaram a atenção, em avisos oportunos, para o risco de se construírem estádios a mais e de alguns deles, pelas cidades em que se localizavam e pela amplitude limitada da sua actividade desportiva, não apresentarem garantias de terem no futuro sustentabilidade financeira. Perante isto, os fanáticos dos eventos desportivos a todo o custo, que dominaram a organização do Euro 2004, descobriram, só eles, por força da sua grande imaginação, consequências económicas magníficas para tantos investimentos em estádios. Com a sobranceria que os caracteriza (não estavam a gastar o dinheiro deles), disseram as coisas mais extravagantes em defesa daquilo que os críticos receavam fosse um enorme desperdício de recursos, e desdenharam esses críticos com as habituais acusações de «velhos do Restelo», «pessoas fora do seu tempo», «inimigos do progresso» e epítetos semelhantes.

Agora, a dura realidade está, como era inevitável, a vir ao de cima. Os jornais têm noticiado ultimamente os graves problemas com que se debatem algumas câmaras municipais (as de Aveiro, Leiria, Coimbra e Faro), que suportam alguns encargos permanentes muito elevados, que consideram incomportáveis, quer com os juros das dívidas que contraíram, quer sobretudo com a manutenção dos estádios. A situação financeira da gestão dos estádios é tão negativa, que uma das autarquias já pôs a hipótese extrema de vender o equipamento, infelizmente pouco transaccionável nas actuais condições, enquanto outra, de forma mais radical, encara mesmo a hipótese de demolição pura e simples. Os fanáticos de 2004, claro está, mantêm-se em completo silêncio. De resto, para tais pessoas, a solução é muito simples: o Estado que «assuma as suas responsabilidades», ou seja, que entre com o dinheiro.

Tudo aponta para que esta história de desperdício inglório de recursos se venha a repetir, no malfadado processo de construção da linha de comboios de alta velocidade (TGV) e de novas auto-estradas. O cenário é infelizmente o mesmo. De facto, tem havido avisos sensatos e fundamentados contra uma tal aventura de investimento, que acabará por agravar a dívida pública e o défice externo. Por outro lado, tais avisos são desprezados pelos fanáticos do investimento público a todo o custo, que também apresentam hipóteses fantasistas e projecções extravagantes sobre as vantagens desses empreendimentos. Parece, de facto, que em Portugal os políticos não têm emenda.