domingo, 31 de janeiro de 2010

SOBRE O FUNDAMENTALISMO RELIGIOSO - II

Como se viu antes, sentimos uma compreensível perturbação e uma indicutível perplexidade quando analisamos o complexo e doloroso registo histórico das manifestações de fundamentalismo e de fanatismo religioso. Essa incomodidade é porventura mais forte quando verificamos que tais ocorrências se verificaram no âmbito de religiões monoteístas, como o cristianismo, o judaísmo e o islamismo, que se baseiam na crença num Deus único, Criador e Senhor do universo, que é por essência o Absoluto, o Infinito, o Altíssimo, expressão ilimitada de amor, bondade, misericórdia, clemência e compaixão. Foram estes os grandes valores que Deus transmitiu aos homens, de várias formas e através de diversos mensageiros.

No caso do cristianismo, a revelação feita por Jesus Cristo, Filho de Deus, condensa-se, em termos de prática nas relações dos homens entre si, no supremo e revolucionário mandamento «amai-vos uns aos outros». Como é possível que este extraordinário imperativo, indiscutível e inderrogável, magnífico e comovente, catalisador de tudo o que há de bom no homem, tenha podido conviver com ideias e atitudes de incompreensão, intolerância, exclusão, perseguição, violência, mesmo de crueldade? Como é possível que aquele mandamento se tenha por vezes transformado, por deturpação e aviltamento, no seu impiedoso oposto «odiai-vos uns aos outros»?.

Como é possível que o admirável ensinamento de São Paulo na 1.ª Carta aos Coríntios (capítulo 13), lida na celebração eucarística de hoje, sobre a caridade, que deve estar acima de tudo, pois é paciente e prestável, não é invejosa, arrogante ou orgulhosa, nada faz de inconveniente nem procura o seu próprio interesse, não se irrita nem guarda ressentimento, não se alegra com a injustiça, mas rejubila com a verdade, tudo desculpa e tudo suporta, tenha sido superado inúmeras vezes por tantas formas de violência, tanto espiritual e psicológica, como física e material?