domingo, 3 de janeiro de 2010

A PROPÓSITO DO DIA DE REIS

A expressão «Dia de Reis» representa a designação popular, tradicional, da festa litúrgica da «Epifania do Senhor» que, embora estabelecida a 6 de Janeiro, é em regra, por razões de ordem prática, celebrada no domingo. Segundo o único relato evangélico deste acontecimento, constante do Evangelho segundo Mateus (II, 1.12), esta manifestação pública de Jesus Cristo foi feita a «uns magos que chegaram do Oriente», conduzidos por uma estrela, «que ia adiante deles». Chegados a Belém e «entrando em casa, encontraram o Menino e adoraram-no», oferecendo-lhe «ouro, incenso e mirra». Parece razoável presumir que estes magos fossem na realidade astrólogos ou astrónomos da região que é hoje o Iraque e tivessem sido atraídos pelo fenómeno celeste da estrela em movimento. Porque terá então prevalecido a expressão popular «reis» ou, noutra versão, «reis magos», em qualquer dos casos em numero de três?

Tudo terá resultado da tendência para a especulação interpretativa, muito frequente na Idade Média. Neste caso, o texto do evangelista Lucas, sendo simples em si, deu origem a uma tradição, oral e escrita, mais ampla, diversificada e inovadora. A expressão «uns magos» foi transformada em «três magos» pelo facto de que, tendo sido oferecidos três presentes, se partiu do princípio de cada um dos magos teria oferecido um presente, na perspectiva, portanto, de ofertas individuais, quando do texto evangélico até parece resultar que se tratou de uma oferenda colectiva, como seria natural. Por outro lado, a mudança de «magos» para «reis» terá surgido da convicção interpretativa, entretanto consolidada, de que a sua vinda concretizava a profecia constante do Livro dos Salmos (Sl 71, 11), onde se refere que «os reis de toda a terra hão de adorá-lo». E assim de «uns magos» chegámos aos «três reis magos», inclusivamente com nomes próprios (Gaspar, Melchior e Baltasar), que ficaram na tradição. De qualquer modo, ficou-nos também o bom hábito de oferecermos presentes uns aos outros, embora no dia de Natal.

Se os magos eram astrólogos ou astrónomos (na altura as duas situações confundiam-se) então isso quer dizer que de certo modo eram os cientistas da época. Assim, o seu gesto terá também o significado simbólico de salientar os limites humanos da ciência, uma homenagem ao Absoluto e ao Infinito. De facto, a ciência não pode explicar tudo, mesmo quando, na descrição científica de como se terá formado o universo, há um momento em que é obrigada a parar. Quando se chega ao começo de tudo, ao grande «big bang», à colossal explosão de energia que, de forma espantosa, em milhões e milhões de anos, deu progressivamente origem ao universo, tal como o conhecemos, há uma interrogação crucial que permanece: que realidade deu origem ao «big bang»? Com isto estamos envolvidos na velha e sempre actual questão da «causa última» de todas as coisas.