quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

EM MEMÓRIA DO HOLOCAUSTO

Faz hoje 65 anos que, no declinar da II Guerra Mundial, as tropas soviéticas alcançaram o complexo dos campos de concentração de Auschwitz (em polaco Oswiecim), a 60 quilómetros de Cracóvia, na Polónia, libertaram os prisioneiros remanescentes e se deram conta do inaudito testemunho que o local representava. Dos três campos aí existentes, dois destinavam-se a trabalho forçado para instalações industriais. O mais tristemente célebre, denominado Auschwitz II-Birkenau, foi construído no âmbito da chamada solução final dos judeus, mediante extermínio em câmaras de gás. Calcula-se que aí tenham morrido entre um milhão e milhão e meio de prisioneiros. Para quem visita hoje este lugar, expressão evidente do que há de pior na natureza humana, os sentimentos são de espanto, horror e incredulidade.

Apesar de tudo, o campo de Auschwitz, embora importante e o mais significativo e emblemático de todos os campos de morte construídos pela Alemanha nacional-socialista de Hitler, foi apenas um dos muitos que constituíram a vasta rede «trituradora de seres humanos» posta em funcionamento durante o regime hitleriano. No entanto, para se ter uma ideia global do que foi o Holocausto, que vitimou cerca de 6 milhões de judeus em 10 anos, é necessário visitar o impressionante Museu do Holocausto, em Jerusalém. Aí os sentimentos que predominam são de profunda dor e indizível angústia perante tanta violência, tamanha desumanidade, tanto pavor e tão grande sofrimento. Instintivamente, a pergunta irrompe do mais profundo de quem faz a experiência: como foi possível ter acontecido?

Foi possível porque, como nos ensina a história, nos homens tudo é possível, desde o melhor do melhor ao pior do pior, quando a razão é aprisionada pela paixão, quando o afecto é substituído pela brutalidade. Foi ainda possível pela cegueira intelectual de muitos. De facto, todas as políticas que Hitler pôs em prática a partir de 1933, incluindo a perseguição dos judeus, estavam já contidas no seu livro Mein Kampf (O Meu Combate), escrito quando esteve preso em 1924 e que toda a gente estava na altura em condições de conhecer. Foi a cegueira intelectual dos alemães que os levou a darem os seus votos ao homem que iria destruir a Alemanha. Foi igualmente a cegueira intelectual das potências ocidentais (França e Grã Bretanha) que as levou a subestimarem sistematicamente a personalidade e os objectivos de Hitler, até chegar o momento em que já nada tinha remédio. Nem sequer as odiosas leis raciais de 15 de Setembro de 1935, as tristemente célebres Leis de Nuremberga, violentamente antijudaicas, impediram a realização dos Jogos Olímpicos em Berlim, em Agosto de 1936, como se nada de especial tivesse acontecido.