sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

NO DIA DA PAZ UNIVERSAL

No meio das grandes tiradas retóricas, mais ou menos repetitivas, em que este dia costuma ser fértil, sobretudo ao nível dos responsáveis políticos e institucionais, subjazem as genuínas aspirações do comum dos homens a uma paz verdadeira e duradoura em todos os sectores da vida humana. Se a paz é a ausência de conflito, então sabemos que a paz é difícil, porque a tendência para o conflito é inerente ao homem e radica no seu impulso natural para o poder, qualquer que ele seja, para a imposição da sua vontade. Deste modo, quando dois destes impulsos se encontram e não são enquadrados e absorvidos por outros valores, dá-se o choque, o conflito. A paz implica, por isso, a cuidadosa avaliação do uso do poder, para que se harmonize o melhor possível com os demais poderes concorrentes.

A harmonização dos poderes implica várias coisas, que constituem um verdadeiro teste à capacidade de convivência humana de cada um: a) implica o reconhecimento do poder dos outros e, deste modo, a percepção dos ajustamentos a introduzir no exercício do próprio poder, para que sejam atenuados, limitados ou eliminados os efeitos decorrentes do choque de poderes; b) exige o conhecimento e a compreensão dos interesses e das motivações dos outros, que estão na base do exercício do seu poder; c) requer o diálogo com os outros, para consensualizar os ajustamentos mútuos dos poderes, ou seja, a sua mútua limitação; d) determina a capacidade de perdoar quando os outros excedem os limites razoáveis dos seus poderes, para evitar que os conflitos se agravem ou se cristalizem.

No fundo, cada homem é impulsionado naturalmente pela poderosa atracção do uso do seu poder e pode desviar-se para caminhos perigosos que conduzem ao conflito quando, por egoísmo, vaidade, prepotência e ambição de mais poder, nega o poder dos outros ou procura subjugá-los à sua vontade. A paz universal depende, assim, individualmente, de cada homem, de milhões de homens, da sua capacidade para se conhecerem a si e aos outros, do seu talento para se autolimitarem, da sua lucidez para estarem sempre de prevenção relativamente aos conflitos, pois, como bem referiu Saint-Exupéry, «ninguém é uma ilha», ninguém pode permanecer isolado, à revelia dos outros.