No meio das grandes tiradas retóricas, mais ou menos repetitivas, em que este dia costuma ser fértil, sobretudo ao nível dos responsáveis políticos e institucionais, subjazem as genuínas aspirações do comum dos homens a uma paz verdadeira e duradoura em todos os sectores da vida humana. Se a paz é a ausência de conflito, então sabemos que a paz é difícil, porque a tendência para o conflito é inerente ao homem e radica no seu impulso natural para o poder, qualquer que ele seja, para a imposição da sua vontade. Deste modo, quando dois destes impulsos se encontram e não são enquadrados e absorvidos por outros valores, dá-se o choque, o conflito. A paz implica, por isso, a cuidadosa avaliação do uso do poder, para que se harmonize o melhor possível com os demais poderes concorrentes.A harmonização dos poderes implica várias coisas, que constituem um verdadeiro teste à capacidade de convivência humana de cada um: a) implica o reconhecimento do poder dos outros e, deste modo, a percepção dos ajustamentos a introduzir no exercício do próprio poder, para que sejam atenuados, limitados ou eliminados os efeitos decorrentes do choque de poderes; b) exige o conhecimento e a compreensão dos interesses e das motivações dos outros, que estão na base do exercício do seu poder; c) requer o diálogo com os outros, para consensualizar os ajustamentos mútuos dos poderes, ou seja, a sua mútua limitação; d) determina a capacidade de perdoar quando os outros excedem os limites razoáveis dos seus poderes, para evitar que os conflitos se agravem ou se cristalizem.
No fundo, cada homem é impulsionado naturalmente pela poderosa atracção do uso do seu poder e pode desviar-se para caminhos perigosos que conduzem ao conflito quando, por egoísmo, vaidade, prepotência e ambição de mais poder, nega o poder dos outros ou procura subjugá-los à sua vontade. A paz universal depende, assim, individualmente, de cada homem, de milhões de homens, da sua capacidade para se conhecerem a si e aos outros, do seu talento para se autolimitarem, da sua lucidez para estarem sempre de prevenção relativamente aos conflitos, pois, como bem referiu Saint-Exupéry, «ninguém é uma ilha», ninguém pode permanecer isolado, à revelia dos outros.