terça-feira, 19 de janeiro de 2010

MANUEL ALEGRE NÃO QUER SER CONTABILISTA

No dia 15 de Janeiro, Manuel Alegre, o ex-deputado socialista que é há muito proto-candidato à próxima eleição presidencial em 2011, realizou em Portimão um encontro com mais de duas centenas de apoiantes e simpatizantes, onde afirmou estar disponível para disputar esse combate político. Não se tratou ainda do anúncio formal da sua candidatura, mas sem dúvida da formalização do seu estatuto de pré-candidato. No discurso então proferido houve duas afirmações que, por conterem claramente críticas ao actual Presidente Cavaco Silva, tiveram considerável eco na comunicação social. No entanto, tais declarações, pelo seu simplismo, dão origem a naturais perplexidades.

Em primeiro lugar, Manuel Alegre asseverou, com ênfase poético, que o país precisa de algo mais do que de uma visão «contabilística e tecnocrática». Isto foi dito com evidente alheamento e mesmo desdém para com o trabalho dos contabilistas, bem como, naturalmente, dos economistas, como se em qualquer organização e mais ainda no Estado, que tem de satisfazer as mais variadas necessidades de milhões de pessoas, logo, de gerir bem os recursos financeiros, que são escassos, fazer bem as contas, controlar correctamente a relação entre receitas e despesas, prever com segurança o seu desenvolvimento futuro, bem como acompanhar, com atenção e rigor, a evolução da dívida pública, não fosse uma tarefa de primordial importância, mesmo essencial, para assegurar o bem-estar colectivo.

Em segundo lugar, Manuel Alegre recordou a famoso frase do antigo Presidente Jorge Sampaio, que pertence à mesma área política, proferida, salvo erro, em 2004, de que «há mais vida para além do défice». Na altura, esta afirmação de sobranceria intelectual foi, não só completamente inoportuna no contexto da época, mas também profundamente injusta para o Governo de então, face à situação real em que o país se encontrava. Esta perspectiva parece partir do princípio de que uma boa gestão do Estado não reclama uma permanente atenção ao são equilíbrio das contas públicas, como se governar um país implicasse apenas conjugar os verbos «ter ideias» e «gastar», pois, quanto às receitas, há sempre o recurso fácil ao agravamento dos impostos pagos pelos cidadãos.

Trata-se aqui da manifestação do mesmo conceito ingénuo e simplista da economia, como se a política pura, o simples debate de ideias, o mero discurso, tudo resolvessem sem uma economia florescente e umas finanças sólidas. De facto, há mais vida para além do défice, mas que qualidade de vida?