domingo, 10 de janeiro de 2010

COMPREENDER O MAL NO MUNDO

uma tendência natural no homem para sentir angústia ou mesmo revolta pelo facto de ter dificuldade em compreender e em aceitar a existência do mal, nele próprio e nos outros homens. Ao longo dos séculos numerosas correntes filosóficas e religiosas buscaram uma explicação, mas esbarraram sempre com o fracasso pela maneira simplista como tentaram justificar o mal, quer por uma perspectiva dualista (Deus só pode criar o bem, pelo que o mal é o produto da acção de um ser superior maligno), quer através da ideia de pecado original, tradicionalmente adoptado pela Igreja (ver aqui).

Deus é perfeito, porque é ilimitado e absoluto em todos os seus atributos. Como pode ter permitido o mal no âmbito da criação? A natureza criada é limitada, pelo que as ocorrências naturais, embora sujeitas a regras e leis, por vezes sofrem desvios ou anomalias, por força dos seus próprios mecanismos de funcionamento (por exemplo, uma mutação genética). Os homens são seres racionais dotados de liberdade e vontade, mas sofrem também de limitações naturais, susceptíveis de originarem desequilíbrios psicossomáticos que podem facilitar a ocorrência de erros os desvios, na inteligência e na vontade livre, ou seja, que os induzem a praticar o mal.

O mal é assim a ausência do bem, por força de um desvio, ocorrido na natureza material ou energética, ou no homem, quando a tensão interior existente em cada ser criado não é travada, pelo que origina o colapso do seu equilíbrio, que constitui o bem. Esses desvios não são imputáveis a Deus, pois são por definição inerentes a toda a criatura, que por ser limitada é ontologicamente imperfeita e, desse modo, susceptível de erro. Se a criatura fosse ilimitadamente perfeita, sem possibilidade de desvio ou anomalia, teria, afinal, os mesmos atributos de Deus, ou seja, Deus e o Universo confundir-se-iam, como afinal pretendem os adeptos das teorias panteístas.

O problema do mal no homem ganhou, no entanto, contornos completamente diferentes com Jesus Cristo, já que, sendo simultaneamente Homem e o Verbo de Deus, estabeleceu uma ponte de ligação única entre os seres finitos e imperfeitos, que são os homens, e o Infinito e Perfeito, que é Deus. Essa ponte de ligação dá aos homens a possibilidade de terem outra capacidade de discernimento (ficam mais esclarecidos) e outra capacidade de preservarem a sua vontade livre (ficam mais eles próprios, mais conscientes de si) e assim resistirem à ocorrência de erros materiais os desvios morais.