sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

GOVERNAR É FAZER INAUGURAÇÕES? - II

Como já vimos antes, os membros do Governo parecem empenhados em realizar uma espécie de corrida desenfreada pelo país fora, de norte a sul, em sessões públicas de todo o tipo, nos mais variados encontros, bem como em visitas e inaugurações, tudo devidamente publicitado pelas televisões. Com esta tendência para a omnipresença dos responsáveis governamentais em tudo quanto é sítio, parece objectivamente impossível que não venha a faltar o tempo, que sabemos ser precioso, para a execução de tarefas menos mediáticas, mas muito mais importantes e prioritárias, além de úteis, para o país e os portugueses, que se debatem com dificuldades que não devem ser subestimadas.

Não é difícil inventariar algumas dessas tarefas fundamentais para a governação, a que neste momento os governantes se deviam dedicar de corpo inteiro: a) o cuidadoso e aprofundado estudo dos processos de maior responsabilidade, para evitar que sejam tomadas decisões precipitadas, não devidamente ponderadas, com efeitos que podem ser irreversíveis; b) os contactos com as entidades que podem fornecer dados essenciais para que as tomadas de decisão sejam sólidas, fundamentadas e justas; c) a rigorosa análise dos relatórios, nacionais e internacionais, sobre a conjuntura económica e financeira e suas implicações nas políticas; d) a leitura atenta dos projectos de diplomas legislativos, para evitar que sejam aprovadas leis mal feitas; e) a realização de reuniões a vários níveis para assegurar a articulação funcional dos serviços dos diferentes ministérios, tendo em vista o controlo exigente da execução das medidas de política estabelecidas e dos diplomas legais publicados.

Governar não pode ser, por isso, exibir diariamente a imagem nas televisões, aparecer todos os dias em acontecimentos menores, em que são produzidas declarações de circunstância, improvisadas ou repetidas. Governar não pode ser um permanente corrupio ou um vaivém contínuo, não pode confundir-se com o antigo sistema do «ministro que inaugura tudo». Em 2010, o Primeiro-Ministro de Portugal não pode pretender retirar do arquivo da história o estilo do Presidente da República do Estado Novo, do tempo de Salazar, Almirante Américo Tomás, que ficou muito justamente conhecido como o «Presidente corta-fitas».