sábado, 2 de janeiro de 2010

A CRISE NÃO É SÓ ECONÓMICA

Uma certa cultura de inspiração marxizante pode ter penetrado mais profundamente na nossa vida colectiva do que poderíamos imaginar. É capaz de radicar aí a ideia de que o homem não é um actor verdadeiramente responsável, mas antes vítima das pressões emergentes das formas de organização económica, social e política que dominam a sociedade. Essa tendência manifesta-se com frequência quando alguns pretendem explicar certas realidades negativas, como o agravamento da criminalidade, o aumento do insucesso escolar ou o decréscimo do nível de civismo, como se tudo fosse causado pelo meio envolvente, não já pelas pessoas em si, como cidadãos responsáveis. Esta forma de pensar desvaloriza o papel da liberdade humana, minimiza a importância da vontade pessoal e relativiza o valor da responsabilidade individual, ao mesmo tempo que deprecia a importância das regras morais e cívicas que devem balizar os comportamentos dos cidadãos.

Parece evidente que o declínio económico do país traduz também o declínio da qualidade humana média das pessoas, que atinge as famílias e os grupos sociais. Há, de resto, indicadores que exprimem o facto de haver rupturas na coesão, no equilíbrio e na vitalidade das famílias (aborto, natalidade, divórcio e nascimentos fora do matrimónio), da actividade económica (infracções à lei e corrupção) e da sociedade (indisciplina cívica e criminalidade). Este declínio da sociedade enfraquece as energias colectivas e tem influência na motivação laboral e social, na criatividade e no espírito de iniciativa, com efeitos negativos na produtividade e na capacidade de empreendimento, ou seja, nos resultados económicos.

Por isso, a saída da crise não pode ser apenas conseguida por meios materiais e muito menos por exclusiva iniciativa do Estado, mas também através do reforço das energias cívicas e morais do conjunto da sociedade. É necessário que haja um verdadeiro «levantamento da sociedade», que tome consciência da gravidade da situação. No entanto, o exemplo tem que vier de cima, de quem detém o poder e está mediaticamente exposto, ou seja, que exibe publicamente as suas qualidades e os seus defeitos. A elite política e social não pode sê-lo apenas no plano formal do exercício do poder, mas também no domínio substantivo das ideias, das convicções e das práticas. Como se disse noutro lugar, o exercício do «imperium» (poder de comando) é pouco eficaz se não for acompanhado da demonstração de uma verdadeira «auctoritas» (valor pessoal).