Os acontecimentos conhecidos ou apenas suspeitados, bem como os conentários, desencontrados e por vezes agressivos, algumas vezes injustos, que têm aparecido um pouco por todo o lado, parecem confirmar o que foi dito antes, ou seja, que estes tempos são de facto amargos e dolorosos para a Igreja. Quem pode saber, porém, se, ao mesmo tempo, não serão providencialmente úteis, pois convidam a uma reflexão serena, mas corajosa e profunda, sem as limitações e dificuldades próprias de uma organização que, historicamente, por força da rigidez da sua estrutura, sempre teve dificuldade em conviver com as críticas e, desse modo, em exercer internamente uma saudável autocrítica.De todos os comentários feitos, talvez mereça neste momento uma breve reflexão o que se centra na ideia de que oficialmente a Igreja tem há muito uma «relação crispada» com a sexualidade. Ao tentar compreender, se é possível, as causas desta relação difícil, tenho a impressão de que tal dificuldade pode ter uma longínqua e subtil filiação. Antes de mais, ao expandir-se inicialmente no âmbito do Império Romano, a partir de regiões em que predominava a cultura grega, e ao estruturar e consolidar as suas bases doutrinárias, a partir dos textos evangélicos, a Igreja pode não ter escapado à influência das tendências dualistas presentes das filosofias helenísticas da Antiguidade, que terão facilitado o desenvolvimento de ideias de uma certa antinomia e contradição, mesmo eventualmente incompatibilidade, entre o corpo e o espírito humanos.
Na história do cristianismo, as tendências dualistas manifestaram-se em várias seitas e doutrinas heréticas (gnosticismo e maniqueísmo, entre muitas outras), que proliferaram em várias épocas e em diferentes regiões. Essas correntes filosóficas e religiosas maximizavam o dualismo, desvalorizando e encarando de forma negativa a matéria, o corpo (com propensão para o pecado), incluindo, naturalmente, a sexualidade, em favor do espírito, da alma, voltados para Deus e de certo modo prisioneiros da carga biológica corporal do homem.
Pode ter acontecido que alguns traços culturais muito difusos de raiz dualista tenham passado, de forma subtil e sub-reptícia, para ideias, práticas e até linguagem correntes no cristianismo, onde se foram insensivelmente consolidando ao longo dos séculos. A dificuldade aparente de a Igreja lidar com a sexualidade pode estar relacionada com um certo pessimismo de base relativamente ao corpo humano e às suas funções biológicas fundamentais, como a atracção sexual. Uma certa espiritualidade cristã parece alimentar-se bastante da exagerada dicotomia entre matéria e espírito, entre corpo e alma.
Sem grande dificuldade é possível encontrar na linguagem cristã corrente aquilo que podemos considerar resquícios de uma perspectiva dualista, de que não nos apercebemos. Bastará dar alguns pequenos exemplos. É o que acontece quando falamos em «cura de almas» e em «pastor de almas» para nos referirmos ao pároco que dirige uma paróquia, como se os paroquianos não fossem constituídos por homens e mulheres de carne e osso. O mesmo se passa quando cantamos na igreja textos como, por exemplo, «a minha alma louva ao Senhor», em que obviamente o corpo também participa. É também o que se verifica quando, a propósito da morte de alguém, se afirma que «a alma se libertou do corpo», como se este constituísse uma prisão.












Todos nos recordamos do clamor, manifestamente artificial, que se ouviu da parte do Partido Socialista, por ocasião da campanha eleitoral para as eleições legislativas de Setembro de 2009, a propósito do facto de outros partidos não terem apresentado programas eleitorais tão atempadamente como ele tinha feito e, sobretudo, pela circunstância de tais programas serem pouco desenvolvidos, quando comparados com outros, que, de aspecto prolixo, continham centenas de páginas. Parecia estar implícito que em tais programas é mais a quantidade do que a qualidade que deve estar em causa.





ue há de pior e de mais deletério na acção política é o jogo de enganos do discurso, é a incapacidade de os responsáveis políticos conviverem de forma sadia e frontal com a verdade dos factos, sem subterfúgios, sem circunlóquios, sem meias verdades, sem fingimentos, sem manipulação, grosseira ou sofisticada, dos indicadores económicos e financeiros, sem ocultação das verdadeiras intenções governamentais, sem distorção das medidas de política que porventura seja necessário tomar. Os cidadãos, enquanto eleitores, são pessoas adultas e minimamente informadas, não são estúpidos, nem vivem com a cabeça enterrada na areia. Procuram ser responsáveis e cumprir os seus deveres cívicos. Por isso, não aceitam ser manipulados nem enganados ou manobrados com falinhas mansas, sorrisos de ocasião, gestos teatrais ou afirmações desfasadas da realidade.
Muitos de nós teremos de certo observado que, desde o início de funções dos primeiros governos democráticos saídos da Constituição Política de 1976, tem havido não apenas inúmeras alterações da estrutura dos governos, mas também frequentes modificações da própria constituição e denominação dos ministérios. Estas mudanças sucessivas, por vezes pouco compreensíveis e quase nunca justificadas ou explicadas, têm sido mais frequentes em certos ministérios, como é o caso dos ministérios que integram as políticas sociais (trabalho e protecção social) e as políticas económicas. Em muitos casos, tais opções sobre a estrutura governamental ou a nomenclatura dos ministérios parecem resultar de decisões subjectivas, se não mesmo de verdadeiros caprichos políticos, como se o novo primeiro-ministro se sentisse incomodado pelo facto de as estruturas e designações dos ministérios terem resultado de decisões de anteriores responsáveis.










