domingo, 1 de novembro de 2009

A FESTA DE TODOS OS SANTOS COMO GLOBALIZAÇÃO

O receio que instintivamente o ser humano tem da morte parece radicar, segundo algumas análises de natureza psicológica e filosófica, numa certa repugnância natural que sente perante a eventualidade de extinção do seu eu pessoal, do desaparecimento da sua consciência individual, da aniquilação da sua personalidade, formada ao longo dos anos. Por isso, juntamente com esse medo profundo, manifesta-se uma certa aspiração à permanência para além da finitude física, para que toda a riqueza interior do eu não seja um desperdício, não se transforme em nada. Esse desejo, muitas vezes porventura difuso, à permanência traduz-se num certo apelo íntimo à imortalidade, à perpetuação do eu pessoal, que tem consciência da sua identidade ao longo de toda a vida. Radica aqui a crença cristã , que em si constitui um mistério de fé de base evangélica, na imortalidade da alma e na ressurreição (melhor dizendo, na reconfiguração) do corpo entretanto tornado cinza. Trata-se de uma crença humanamente consoladora, que alimenta e consolida a confiança na vida, na sua razão de ser e no seu significado.

Esta vontade interior de permanência implica também a necessidade de intercomunicação com os outros que já terminaram o seu percurso da vida. Também nesta situação «para além da morte» continua válida a maravilhosa ideia de Antoine de Saint-Exupéry de que «ninguém é uma ilha». Esta exigência de intercomunicação e de solidariedade espiritual significa que estamos perante a primeira, a mais vasta e a mais dinâmica das globalizações, a da totalidade das consciências individuais sobreviventes num plano não físico. Vem a ser este, afinal, o traço essencial que apresenta a Festa de Todos os Santos, que a Igreja Católica celebra no dia de hoje. Todos os que terminaram o seu ciclo de vida em amizade com Deus (é esse o sentido da expressão «santos») sentem-se em intercomunicação activa, não só uns com os outros, mas igualmente com todos os que, como nós, são ainda confiantes peregrinos na vida que nos foi concedida e procuram manter essa mesma amizade com Deus. Por isso os recordamos com especial sentido no dia de hoje, numa grande comunhão colectiva assente no pilar da fé, Jesus Cristo, como membros do seu Corpo Místico, na bela e significativa expressão que nos foi legada por S. Paulo.