Um dos aspectos mais perversos da distorção prática em Portugal do conceito democrático de «governo de maioria» está na subalternização ou mesmo no desprezo a que é votada a oposição, como se esta não representasse fatias importantes da população e como se não tivesse nenhuma ideia v
álida digna de ponderação. O I Governo de José Sócrates foi o exemplo extremado desta deturpação do funcionamento da democracia. Deu o que todos sabemos. Mas a mesma prática se pôde observar, em grau maior ou menor, em todos os governos anteriores. Agora, não obstante se encontrar em minoria, tudo indica que o Primeiro-Ministro não vai alterar significativamente uma tal prática política. A explicação para a aceitação generalizada desta forma de governar radica porventura na cultura dominante na classe política portuguesa, que ficou representada no baixo nível e na exagerada agressividade e conflitualidade que caracterizaram a campanha eleitoral para as eleições legislativas.
álida digna de ponderação. O I Governo de José Sócrates foi o exemplo extremado desta deturpação do funcionamento da democracia. Deu o que todos sabemos. Mas a mesma prática se pôde observar, em grau maior ou menor, em todos os governos anteriores. Agora, não obstante se encontrar em minoria, tudo indica que o Primeiro-Ministro não vai alterar significativamente uma tal prática política. A explicação para a aceitação generalizada desta forma de governar radica porventura na cultura dominante na classe política portuguesa, que ficou representada no baixo nível e na exagerada agressividade e conflitualidade que caracterizaram a campanha eleitoral para as eleições legislativas.Os antecedentes históricos mostram bem como está enraizada sociologicamente esta incompatibilidade crónica entre governos e oposições, que se deve considerar uma verdadeira doença política, pois ela indicia uma espécie de guerra civil contida. Pode ser esta uma das causas do nosso fraco desenvolvimento colectivo. Foi assim na I República, que ficou conhecida pela sugestiva expressão de «balbúrdia política»; foi assim também na ditadura do Estado Novo, que cultivou e desenvolveu com acinte a clivagem entre situação e oposição, esta depreciativamente designada como «reviralho»; tem sido de um modo geral assim desde 25 de Abril de 1974, em que a esquerda, maioritária no país, anatematiza de vez em quando as correntes políticas não socialistas, apodadas de reaccionárias, conservadoras «salazarentas» e saudosistas do passado, como ainda se ouviu recentemente nas campanhas eleitorais.
No Jornal Público do passado dia 7 de Novembro Vasco Pulido Valente, com a sua habitual lucidez e precisão de análise, condensou bem o problema: A «cultura da negociação e do compromisso», de que tanto se fala hoje, é estranha à política portuguesa. Em Portugal, os partidos, quando muito, aceitam em partilhar o funcionalismo ou dividir a influência do Estado e os dinheiros públicos, como sucedeu em certa época na Monarquia Liberal e sucede agora no chamado «centrão», mas nunca partilham o poder propriamente dito. No fundo, podemos dizer que o povo português em geral e os políticos em particular não se encontram dominados em profundidade por uma verdadeira cultura democrática que, entre outras coisas, se exprime no binómio «respeito pelo adversário» e «capacidade de compromisso».