sábado, 21 de novembro de 2009

O PERIGOSO FASCÍNIO DO PODER

O exercício do poder político e administrativo, enquanto actividade coactiva, que constrange em certas situações, exerce um fascínio muito grande sobre os titulares desse poder, pois se enquadra numa tendência inata do homem para o domínio e a posse. Essa atracção natural do poder pode tornar-se em verdadeira embriaguez, sobretudo quando ele é exercido num quadro cultural pouco consistente, em que o respeito pela liberdade individual não se encontra muito desenvolvido e em que é frequente a prática da adulação. Quem acede ao poder político sem estar devidamente preparado para bem compreender a enorme responsabilidade funcional e cívica em que fica investido, pode ficar deslumbrado com os aspectos exteriores e os faustos do poder e com as enormes possibilidades de domínio que tal autoridade oferece. De facto, um ministro, por exemplo, pode nomear e demitir pessoas para determinados cargos, dar ordens e alterá-las ou revogá-las, emitir regras e despachar processos disciplinares , exarar despachos e aprovar regulamentos administrativos, preparar leis e aplicá-las, com toda a carga coerciva que comportam, conceder subsídios e outros benefícios ou vantagens, bem como realizar obras de grande impacte material e financeiro.

Mesmo nas democracias modernas pode acontecer por vezes que, por força daquela embriaguez do poder, o exercício prático da autoridade pareça decalcado em práticas que se pensariam mais próprias de regimes de ditadura ou em posturas políticas que ficaram clássicas nos já velhos tempos do despotismo iluminado. De facto, quem exerce o poder político pode cair facilmente na tentação de pensar que o cargo e a responsabilidade proporcionam uma espécie de iluminação especial, que permite ver, mais claramente do que ao comum das outras pessoas, o que é bom para os cidadãos, independentemente da opinião destes. É em nome destas convicções e deste tipo de certeza iluminada que podem ser cometidos graves erros políticos, como a história abundante e tristemente comprova. Por isso, os nossos políticos deviam fazer regularmente a experiência a que eram sujeitos os generais romanos quando desfilavam nos cortejos de glorificação das vitórias alcançadas. Com efeito, no carro do general seguia sempre um escravo que lhe ia segredando ao longo do cortejo: «memento te esse hominem» (lembra-te de que és apenas um homem).