segunda-feira, 16 de novembro de 2009

UMA DECLARAÇÃO INADMISSÍVEL

Fiquei de início perplexo e depois verdadeiramente atónito ao ouvir as inesperadas, espantosas e inacreditáveis declarações proferidas pelo Ministro da Economia no dia 13 último, a propósito do caso da transcrição das escutas telefónicas realizadas no âmbito do processo «Face Oculta», em que o Primeiro-Ministro José Sócrates aparece como interlocutor de Armando Vara, arguido no mesmo processo. Nada no discurso de Vieira da Silva pareceu correcto e, por isso, aceitável: nem no tempo, pois está a decorrer uma investigação judicial, que o Ministro deve respeitar escrupulosamente, evitando contribuir para agravar o que em si mesmo já não parece são, isto é, uma mistura espúria e explosiva entre justiça e política; nem no modo, uma vez que que sendo titular da pasta da Economia, não lhe cabe, nem é sensato (é o mínimo que se pode dizer desta intervenção destrambelhada) falar de assuntos que correm nos tribunais; nem na forma, porque é intolerável e de uma gravidade extrema que um membro do poder executivo considere que uma diligência do poder judicial se enquadra no âmbito de uma «conspiração política».

O que é mais grave ainda é que, segundo tudo indica, aquela declaração não resultou de um «lapsus linguae» (de qualquer modo, sempre condenável) ou de um qualquer impulso de momento menos controlado; pelo contrário, pela forma pausada e impressiva como foi produzida, representou aquilo que o Ministro efectivamente pensou e quis dizer. Foi, por isso, uma afirmação política autêntica e intencional. Se não vivêssemos num país que parece politicamente doente e socialmente indiferente ou anestesiado, seria de facto difícil Vieira da Silva continuar, após este lamentável incidente, a fazer parte do Gabinete. Como isso não se vai seguramente verificar, pois nem sequer teve lugar uma retratação ou algo parecido com isso por parte de Ministro, nem qualquer comentário do Primeiro-Ministro, só nos resta pedir emprestadas as famosas palavras que o Rei de Espanha Juan Carlos dirigiu ao Presidente Hugo Chávez, da Venezuela, e dizer, gritando bem alto a nossa indignação: «porque não se calam»?