domingo, 29 de novembro de 2009

HÁ ADVENTO TODOS OS DIAS

A religião cristã não é uma superestrutura ideológica ou filosófica que, por assim dizer, paira acima do quotidiano concreto dos homens, alheia aos seus dramas, problemas e anseios. Pelo contrário, nada do que é humano lhe é alheio ou indiferente. Por isso, cada festividade litúrgica comporta sempre uma mensagem particular, susceptível de transmitir a cada um de nós uma luz, ainda que pequena, de inspiração, ajuda e conforto, qualquer que seja a situação em que nos encontremos. Tem hoje início o tempo tão característico do Advento. que prepara a recepção d'Aquele que estava para vir, na feliz expressão de João Baptista, personagem central deste período, numa gradual aproximação do grande Dia de Natal, em que se celebra o nascimento de Jesus Cristo, aquele que realmente veio como Salvador. As quatro semanas de celebração do Advento apresentam-nos assim duas mensagens.

A primeira é uma mensagem de esperança, relacionada com a expectativa que cada homem sente dentro de si, com o desejo, ainda que difuso, de libertação (o salvador é por natureza um salvador) de todas as algemas, quaisquer que sejam, que o mantêm prisioneiro do medo, da angústia, por vezes do desespero, da solidão, da miséria moral ou da pobreza material, fruto dos seus próprios erros, incapacidades e limitações, bem como das injustiças praticadas pelos outros. Todos os dias sentimos, de uma maneira ou de outra, através da nossa insatisfação e inquietação, a necessidade de que a salvação esteja ao nosso alcance. Por isso a celebração litúrgica de hoje recorda tão oportunamente a orientação do Evangelho segundo Lucas (c. 21, v. 28): erguei-vos e levantai a cabeça, porque a vossa libertação está próxima.

A segunda mensagem sugere os meios, que implicam mudanças nos comportamentos individuais e nas relações sociais, para que sintamos de facto a salvação libertadora. Para isso, é indispensável «endireitar as veredas» e «aplanar os caminhos», como, de forma tão impressiva, clama João Baptista. Isso significa necessariamente seguir sempre em frente, caminhar em linha recta, escorados na rectidão, na justiça e na solidariedade. Neste momento tão grave para o futuro do país, as nossas expectativas podem ser grandes, podem até parecer exageradas, mas são sem dúvida justas e traduzem-se num forte apelo à mudança. E que esperamos nós que mude? Esperamos que tudo, em todos os sectores de actividade, em todas as situações, seja levado mais a sério por todos e por cada um, com autenticidade, empenhamento e dedicação. Se assim fizermos, cada dia do futuro será melhor do que o dia anterior. Começaremos então a sentir a libertação.