Desde o início do I Governo de José Sócrates parece estar na moda, nalguns sectores políticos e da comunicação social, falar, com manifesto sentido depreciativo, em «interesses corporativos», para referir a alegada resistência de certos grupos sócio-profissionais às mudanças inerentes às reformas de que é suposto o país precisar. Nesse discurso politicamente correcto tais interesses, constantes de regras próprias inseridas nos estatutos jurídicos e sociais desses grupos têm sido genericamente qualificados como «privilégios». O modo capcioso como se faz alusão a semelhantes interesses olvida o facto de que tais «privilégios» foram estabelecidos em leis adoptadas por governos anteriores, alguns apoiados pelos mesmo partido que suporta o actual Governo. Curiosamente, porém, nunca se fazem críticas a esses executivos, nem aos motivos que terão levado os ministros então responsáveis a adoptarem essa legislação. Ou seja, como muitas vezes acontece, aqueles críticos não esmiuçaram a substância dos problemas.Vistas bem as coisas, os anatematizados interesses corporativos significam apenas interesses naturais de certas classes profissionais que consideram estar sujeitas a riscos ou condições específicas de trabalho. Estas circunstâncias podem ter efeito na definição de normas relativas ao sistema remuneratório, ao regime de duração de trabalho ou à protecção social. É natural que esses trabalhadores defendam os seus interesses, como é natural que pretendam manter as regras porventura estabelecidas. É igualmente natural discutir a justificação do estabelecimento desses regimes particulares por anteriores governos ou a razão de ser da sua continuidade no futuro. Mas não é justo nem está de acordo com um são espírito democrático classificá-los sem mais de privilégios ou atribuir-lhes qualquer outro rótulo. De resto, em certos casos pode até estar em causa a preservação de direitos adquiridos, de que os reformadores compulsivos não podem fazer tábua rasa como, infelizmente, já tem acontecido. O poder político arrogante e mal exercido despreza facilmente o direito.
Os verdadeiros reformadores não são os que estão permanentemente a falar das reformas, mas os que, de forma sensata e avisada, as preparam num diálogo construtivo com os interessados, com cautela, competência, rigor, paciência, moderação e equilíbrio, sem espalhafato, sem pressas desnecessárias, mas com segurança e eficácia. Os reformadores palavrosos e convencidos são mais perigosos do que úteis à sociedade e ao Estado.