segunda-feira, 9 de novembro de 2009

A QUEDA DO MURO DE BERLIM

A queda do Muro de Berlim, de que hoje se comemora o vigésimo aniversário, foi um dos acontecimentos sociais e políticos mais importantes e dramáticos da história da Europa, que ocorreu de forma extraordinária, pela sua total imprevisibilidade, pela natureza inteiramente pacífica como aconteceu e como se desenrolaram os movimentos cívicos que o antecederam e o motivaram, bem como pelas profundas consequências que em poucos anos teve em toda a Europa central e oriental, bem como na antiga União Soviética. Sem exagero, pode dizer-se que se tratou de um acontecimento verdadeiramente espantoso, na plena acepção da palavra. Por isso, tendo sido uma ocorrência tão marcante, parece útil recordar algumas lições que nos proporciona e que se podem considerar autênticos mistérios da história.

A primeira lição diz-nos que é possível, em determinadas circunstâncias e em certos momentos, haver uma estranha e enigmática interacção entre a cultura e a barbárie. De facto, o Muro de Berlim foi consequência da II Guerra Mundial, a qual resultou da incompreensível ascensão, por via democrática, do nacional socialismo de Hitler ao poder na Alemanha; tal ascensão, por seu turno, decorreu do facto de após o termo da I Grande Guerra, naquele país em profundíssima crise económica e social se ter dado o completo colapso dos valores cívicos e morais de um povo que tinha um elevado nível cultural e de desenvolvimento. A segunda lição mostra-nos a espantosa força dos apelos individuais e colectivos à liberdade dos cidadãos. De facto, a queda do Muro de Berlim foi facilitada pelo enfraquecimento do regime político da antiga República Democrática Alemã após a substituição do seu líder histórico Honecker, mas esse facto foi consequência directa da enorme pressão cívica resultante das crescentes manifestações pacíficas de centenas de milhar de alemães de leste, a partir dos encontros iniciais na Igreja luterana de S. Nicolau, em Leipzig. A terceira lição evidencia a precariedade e temporalidade do poder das ditaduras, por muito tempo que durem, por muito sólidas que pareçam. Afinal, todo o poder humano, como o próprio homem, tem à partida o seu fim anunciado. É só uma questão de tempo.