Ainda não se extinguiram por completo os ecos da polémica, se assim se pode considerar, suscitada pelas recentes palavras de José Saramago no âmbito do lançamento do seu último livro. No entanto, não parece justificar-se qualquer comentário adicional além dos que foram produzidos aqui, até porque não falta quem entenda, com boas razões, que a intervenção do Prémio Nobel da Literatura foi fundamentalmente oportunística, como forma hábil de ampliar as acções de promoção da sua obra. Nisso parece ter tido amplo sucesso. De qualquer modo, deste confronto de ideias e também de preconceitos, que umas vezes foi acalorado e outras vezes pareceu confuso, algo mais me parece ter chamado a atenção e apresentar interesse actual. Trata-se do facto de que a prática habitual de encarar a Bíblia, bem como a forma tradicional de fazer o seu tratamento editorial (a sua edição como livro), merecem alguma reflexão. Também neste domínio parece possível e desejável introduzir alguma inovação. A ideia de que a Bíblia é uma obra unitária e homogénea, com o mesmo grau de significado e de interesse em todas as suas partes, não corresponde à realidade. De resto, o próprio nome não é mais do que o plural de livro em grego (bíblion), dada a enorme quantidade de livros, aliás extremamente diferenciados no estilo, no espaço e no tempo de composição, que a integram. Esta ideia de pluralidade é perfeitamente visível na expressão, também utilizada, de «Sagradas Escrituras». De qualquer modo, dessa visão rigidamente unitária da Bíblia resultou a prática de muitas edições publicadas serem também unitárias, maciças, compactadas, o que não as torna atraentes na leitura nem facilita o seu manuseamento. Por vezes tais edições fazem lembrar missais e outros livros litúrgicos. Ora, o carácter sagrado da Bíblia diz respeito aos seus conteúdos, não tem necessariamente que se corporizar numa forma diferente de apresentação editorial da que é comum nos demais livros.
Nesta perspectiva, não parece haver razões para que a Bíblia não seja editada e posta à venda com o aspecto normal dos demais livros e em vários volumes, dada a sua enorme extensão e a sua grande diversidade interna. Teria certamente interesse, porque facilitaria a leitura e a progressiva compreensão da interligação dos vários livros e do significado das suas mensagens, encontrar nas livrarias edições parcelares da Bíblia,a começar pela que exprimisse a grande divisão entre Antigo e Novo Testamento. Seria de igual modo atraente e estimulante encontrar edições específicas, como, por exemplo, a dos Salmos, a dos grandes Profetas, a dos Livros da Sabedoria e dos Provérbios, bem como dos Evangelhos, das Cartas Apostólicas, em especial das magníficas Cartas de S. Paulo, e assim por diante.