Na imprensa de ontem pôde ler-se o seguinte (transcrevo do jornal i):Foram registados 10 mil abortos no primeiro semestre deste ano, a maioria em Lisboa. Os dados são da DGS, que adiantou ontem que 70% dessas interrupções foram feitas em hospitais públicos, com recurso a medicamentos. O número representa um aumento de 5,5% face ao mesmo período de 2008. Impressiona a secura, frieza e indiferença dos números apresentados, como se se tratasse de outra notícia qualquer, que falasse, por exemplo, no abate de milhares de árvores na floresta. Porém, oculta pela aparência fria da notícia permanece a realidade humana angustiante e dramática de que dez mil embriões e fetos foram impedidos de se transformarem normalmente em seres humanos, de que a essa multidão de possíveis seres como nós foi negada a oportunidade de conhecerem a vida e dela usufruírem, de que lhes foi violentamente recusada a possibilidade de desenvolverem as suas personalidades, de estruturarem os seus eus individuais, de afirmarem o seu carácter específico, já que cada ser humano é único e irrepetível. Nisso tiveram menos sorte do que quem os gerou e os técnicos de saúde que os fizeram abortar.Trata-se de um desperdício humano maciço, brutal e impiedoso, de valor incalculável, indigno da nossa civilização, que se pretende humanista. De facto, podemos perguntar-nos quantos desses possíveis seres humanos, eliminados tão prematuramente do ciclo da vida, poderiam vir a ser, dentro de 20 a 30 anos, cidadãos de grande valor e qualidade: médicos ou enfermeiros, que tanta falta fazem aos serviços de saúde; empresários diligentes e trabalhadores empenhados, elementos fundamentais do processo produtivo; professores dedicados e investigadores eficientes, de que tanto precisam a educação e a ciência; artistas e homens e mulheres da cultura, susceptíveis de trazerem inovação; políticos honestos sinceramente empenhados na coisa pública; agentes dos serviços sociais, dedicados ao apoio aos marginalizados e desfavorecidos da sociedade; sacerdotes e homens e mulheres de religião, inteiramente devotados ao serviços dos seus semelhantes. Ninguém sabe responder a esta questão, pois é esse o grande e exaltante mistério da vida, que deve ser respeitado.
A vida humana, ainda que gerada acidentalmente, é demasiado valiosa para ser reduzida a um mero acidente e, portanto, descartável. Os partidários e os praticantes do aborto alguma vez pensaram que não teriam beneficiado do dom da vida se os seus progenitores tivessem tido as mesmas ideias e assumido as mesmas práticas? Porventura não apreciam o facto de lhes ter sido permitido usufruírem da vida? Porque negam a outros, aos indefesos e frágeis nascituros, essa possibilidade magnífica e inestimável?