segunda-feira, 2 de novembro de 2009

HÁ UM DIVÓRCIO ENTRE O POVO E A CLASSE POLÍTICA?

É tão frequente ouvir-se falar e com tanta ênfase no divórcio (em regra, é esta a expressão usada) entre o povo e a classe política que uma tal perspectiva quase se poderia considerar consensual. Afigura-se, no entanto, que se trata de um exagero, tão frequente na análise política desenvolvida em certos sectores. Não parece de facto que se possa falar em ruptura, mas apenas, quando muito, em afastamento, talvez em desajustamento. Normalmente tende a considerar-se que a principal causa deste desfasamento se situa na divergência entre as promessas feitas, sobretudo em campanhas eleitorais, e as concretizações das medidas de política. São as famosas promessas não cumpridas, que tanto têm dado que falar. Sem embargo da importância que possa ter este factor, parece-me mais adequado considerar antes que o aspecto que melhor caracteriza esse desajustamento, origem de tantas incompreensões e desconfianças, se situa na comunicação, no discurso. Os políticos tendem a habituar-se, mesmo a viciar-se, numa linguagem que não é natural nem comum no dia a dia dos cidadãos, com tiques e particularidades que permitem classificá-la como uma espécie de dialecto restrito, o «politiquês».

De facto, o discurso político parece funcionar muitas vezes em circuito fechado, naquilo a que por vezes se chama discurso redondo. A sua principal característica é a previsibilidade, a repetição tautológica e a escassez ou ausência de criatividade. Mas há outras particularidades dignas de menção: o uso e abuso de «slogans» e «sound bytes», muitas vezes desprovidos de verdadeiro conteúdo; a violência verbal extremada e despropositada no modo como se atacam os adversários políticos; a tendência para a não aceitação de erros ou para a sua admissão com extremos exagerados e caricatos de desculpabilização fácil; a apresentação de explicações inverosímeis e fantasiosas para justificar recuos em decisões tomadas sem rigor ou simplesmente sem bom senso; a não aceitação ou a desvalorização sistemática de aspectos negativos da acção política, mesmo quando são evidentes para toda a gente. Tudo isto mostra que há uma contradição, por vezes muito forte, entre as palavras e a realidade e deixa entrever que se mente com facilidade. Como pode esta prática de comunicação originar confiança nos cidadãos?