Como era de esperar, a comunicação social deu bastante relevo à decisão do Tribunal dos Direitos do Homem, em Estrasburgo, que condenou o Estado italiano e deu provimento à queixa apresentada por uma cidadã italiana que protestou contra a existência de um crucifixo na sala de aula da escola pública frequentada pelo filho. A notícia provocou inevitavelmente as mais diversas reacções, com comentários de todos os tipos, uns mais veementes e contrastantes, outros mais comedidos e conciliatórios. Chamou-me em especial a atenção a notícia publicada no jornal i do dia 4, que diz o seguinte: Contactado pelo i, o Padre Manuel Morujão, da Conferência Episcopal Portuguesa explica que a afixação de crucifixos deve ser permitida sempre que as escolas assim o entendam». As razões são simples: «Faz parte da matriz cultural do país e, embora para os que têm fé seja um símbolo religioso, para todos os outros é um símbolo cultural da não violência». Confesso que pessoalmente tenho alguma dificuldade em compreender este entendimento.Na verdade, penso que o crucifixo só pode ser considerado um símbolo exclusivamente religioso e nada mais do que isso que, aliás, é muitíssimo. É mesmo o símbolo mais nobre e significativo do cristianismo, exprime a própria essência do cristianismo, já que a salvação dos homens, anunciada por Jesus Cristo, vem da cruz, onde o Filho de Deus, não um profeta qualquer, foi martirizado. Por isso, a posse ou a exibição de um crucifixo deve ser considerada um acto de fé, implica sempre uma proclamação de fé. Ora, não é possível ao Estado, pela sua própria natureza, assumir tal acto de fé, pelo que não tem sentido os poderes públicos colocarem crucifixos nos locais públicos. Não está em causa o grau maior ou menor de laicidade do Estado, mas sim a contradição insanável que existe entre a natureza do Estado, mesmo que dirigido por católicos convictos, e a declaração de fé que implica a adopção do crucifixo.
Esta prática, que ainda se mantém nalguns locais, como as escolas referidas naquelas notícias, representa no fundo um anacronismo histórico, um comportamento residual de algo que esteve completamente generalizado nos tempos em que predominou a chamada «aliança do trono e do altar», nos períodos em que os governos interferiam nos assuntos religiosos e até na vida da Igreja ou nos momentos em que ocorreu alguma promiscuidade entre os poderes políticos e os poderes religiosos. Tais práticas contrariavam frontalmente o preceito evangélico de «dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus». Por isso, se as escolas de Deus (as escolas de inspiração cristã) podem e devem exibir o crucifixo, o mesmo não se pode passar com as escolas de César (as escolas do Estado).