O Ministro Mário Lino, titular da pasta das Obras Públicas do anterior Governo de José Sócrates, numa altura em que foi questionado para explicar os vultosos gastos realizados com as cerimónias, algumas delas pomposas, de inauguração de novos empreendimentos, respondeu, com a candura simplista e o artifício de argumentos que o caracterizavam, que tais encargos não eram suportados pelo Estado, mas sim pelas empresas públicas e pelos institutos públicos (administração indirecta do Estado), que teriam receitas próprias. Como se vê, era um argumento puramente formal, um mero arranjo explicativo, que omitia a evidência de que tais despesas, enquanto encargos dispensáveis ou inúteis, teriam sempre como efeito diminuir o eventual saldo de exercício dos organismos envolvidos, com desvantagem para a participação financeira do Estado, ou aumentar o eventual défice, com agravamento das comparticipações do mesmo Estado. Casos como aquele, que sabemos serem muitos, dão uma ideia da cultura de despesismo e de laxismo gestionário instalada no Estado, nos seus políticos e nos agentes administrativos.Esta forma de gerir os assuntos públicos com o dinheiro dos contribuintes, tanto na administração central, como na administração local, revela pelo menos displicência, ligeireza, falta de rigor, ausência de sensibilidade para a boa distribuição dos recursos, que são escassos, e para a criteriosa realização das despesas. Por outro lado, tal maneira de actuar resulta da conjugação perversa de dois factores, que condicionam políticos, administradores e autarcas e que têm que ver com a qualidade humana dos responsáveis. Um dos factores exprime a vaidade resultante do deslumbramento e fascínio pelo poder exercido e pelas sua manifestações exteriores e sumptuárias. O outro factor traduz de forma preocupante a falta de cultura política, cívica e administrativa, única que é susceptível de proporcionar o sentido da medida, da oportunidade e da justiça, e que é por natureza solidária e sensível às verdadeiras necessidades colectivas. Por isso, sem melhorar a qualidade humana dos agentes do Estado no carácter, no empenhamento profissional e no sentido de serviço público, não parece possível alcançar o desenvolvimento de que o país tanto precisa.