Quando em 2008 rebentou a crise financeira de que ainda sofremos os efeitos, a maioria das pessoas, incluindo comentadores e responsáveis políticos, afinaram, de um modo geral, pelo mesmo diapasão: a culpa do sucedido foi dos banqueiros, pela ligeireza, para não dizer irresponsabilidade, da sua gestão, e sobretudo pela sua ganância. De resto, esta palavra, tão deliciosamente demagógica, foi muito usada na altura e nem o Primeiro-Ministro José Sócrates perdeu a oportunidade de a referir com ênfase. Enfim, estava em causa o funcionamento do mercado, enquanto matriz identificadora do sistema capitalista. Ficou à vista de toda a gente uma dicotomia claramente oportunística, que dava uma excelente frase feita, boa para a propaganda: os bons e diligentes governantes tinham sido vítimas de desastrados e maus banqueiros. A par disso passou a falar-se insistentemente na irremediável crise da economia de mercado e na necessidade de maior, mais intensa e crescente intervenção do Estado, incluindo o recurso às nacionalizações. Não faltou mesmo quem dissesse que o socialismo estava de volta, com novo e redobrado vigor e maior actualidade.No entanto, quando a espuma da verborreia demagógica assentou, a verdade, como sempre acontece, começou a manifestar-se um pouco por todo o lado, de tal maneira que, qual cata-vento, o discurso politicamente correcto foi mudando de direcção. Afinal a adopção de riscos excessivos nas operações financeiras, o descontrolo na previsão de resultados e, porventura, a própria ganância (que também houve, de facto) foram possíveis porque da parte dos vários estados tinha havido uma generalizada fuga às suas responsabilidades, tanto dos governos, que falharam na regulamentação, como dos bancos centrais, que falharam na supervisão. Estes falhanços tiveram origem em omissões graves, pois tanto os governos como os bancos centrais não estiveram atentos aos sinais, que eram relativamente evidentes, dos perigos decorrentes do modo como actuava o sistema financeiro. Por isso, fracassaram em toda a linha na prudência de análise, na previsão de riscos e na consequente limitação antecipada de danos, que constituem a marca distintiva da capacidade, inteligência e zelo na gestão da coisa pública. Quem não consegue prever, não pode gerir eficazmente. Mas, no meio de tudo isto, que é muito, quem ouviu uma só palavra, mesmo um simples murmúrio, de genuína autocrítica (ver aqui) por parte dos responsáveis? Deste modo, como é que os cidadãos podem sentir-se seguros e confiantes?