domingo, 7 de fevereiro de 2010

SOBRE O FUNDAMENTALISMO RELIGIOSO - III

Como se referiu antes, o ideal religioso, deturpado e aviltado, sustenta o pensamento e a prática do fundamentalismo, que origina a exclusão. Neste processo, não é Deus nem a sua mensagem, evidentemente, que estão em causa, mas o homem, quando se deixa vencer por dois dos seus principais inimigos, o orgulho pessoal e a ambição do poder. O exercício do poder pelo homem é sempre tentador e, por isso, perigoso, mas o poder religioso, que se exerce sobre as consciências individuais, pode ser contaminado pela doença do totalitarismo espiritual.

Neste processo, o homem como que se apropria de Deus, invocando, ainda que de forma bem intencionada, o seu nome e os seus supostos interesses. O homem como que se reveste da omnipotência divina, mas ao serviço da sua vontade própria, desvirtuada pela obsessão do poder, que cava uma fronteira entre ele e os outros, que têm ideias diferentes. Daí a facilidade com que os outros são discriminados através da própria linguagem, como quando são chamados, por vezes com sentido pejorativo, descrentes (por não professarem nenhuma religião), infiéis (por professarem outra religião), impuros (por comerem certos alimentos proibidos) ou hereges (por contrariarem a ortodoxia estabelecida). Daí a facilidade com que, sem hesitação, com convicção, em nome deste Deus apropriado, colocado ao nível do homem, se faz o incitamento ao ódio ou se usa a violência sob diversas formas.

Esta atitude de apropriação, mental e volitiva, de Deus pelo homem representa uma espécie de «antropomorfização» de Deus. O homem foi criado à imagem e semelhança de Deus, pelo que é dotado de razão e liberdade, mas, nestes casos, o homem torna Deus semelhante a si próprio e por isso o associa abusivamente ao ódio, à exclusão, à vingança e à violência. É a perversão completa do genuíno sentimento religioso, que faz apelo à mansidão, à paz, à compreensão, à solidariedade, à tolerância e ao perdão.