É fácil dar conta no dia a dia que o modo como os políticos, em geral, e os governantes, em particular, falam entre si e ao país é diferente da maneira como, em regra, os cidadãos comunicam uns com os outros. A linguagem não é a mesma. Assim, se nós dizemos que na educação o aproveitamento escolar é fraco ou que a criminalidade está a subir, os políticos replicam que os indicadores estão a melhorar. Se o PIB cresce umas escassas décimas, sem real significado, nós sublinhamos com preocupação que a economia continua em baixo, mas os governantes proclamam. com satisfação, que vem aí a retoma. Se o relatório de uma instituição internacional faz apreciações pouco lisongeiras para a situação económica e financeira do país ou para as políticas governamentais, os políticos apressam-se a salientar que se trata de perspectivas exageradamente pessimistas, que as coisas estão a mudar no bom sentido.Por isso, na medida em que, face aos dados objectivos, as pessoas se mostram realisticamente preocupadas, nalguns casos mesmo legitimamente pessimistas, os governantes mostram-se optimistas e confiantes. Deste modo, os políticos tendem sempre a desdramatizar, como agora se diz (ver aqui), desagravando deliberadamente os aspectos mais negativos dos indicadores económicos e financeiros. É possível que alguns responsáveis políticos assumam esta posição de forma bem intencionada, mas com evidente ingenuidade à mistura, porque partem do princípio de que a recuperação da economia se consegue mais facilmente se o discurso oficial exprimir enfaticamente confiança e optimismo, como se o discurso político fosse por si só, como que por magia, transformador da realidade.
No entanto, estas eventuais boas intenções, eivadas de manifesta ingenuidade, podem traduzir algo de mais grave, ou seja, uma cultura e uma prática políticas de efectivo afastamento da realidade, tal como ela é sentida e vivida pelos cidadãos, pelas famílias e pelas empresas. Isto significaria que a acção política teria sido contaminada pela perspectiva de uma mera realidade virtual, construída a partir da projecção de convicções subjectivas. Num cenário desta natureza a realidade considerada pelos governantes não teria muito a ver com aquilo que as coisas são, mas apenas com aquilo que os políticos gostariam que elas fossem. Governar assim é manifestamente perigoso e pode transformar-se num desastre.