terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

O ABSURDO BLOQUEIO NORTE-AMERICANO A CUBA

O bloqueio económico a Cuba, estabelecido pelos Estados Unidos da América em 19 de Outubro de 1965, inseriu-se na altura, porventura justificadamente, no contexto de um conflito político de elevada gravidade, que quase degenerou em conflito militar, decorrente da instalação de mísseis soviéticos em solo cubano. Entretanto, essa crise perigosa, em que a chamada guerra fria terá atingido o seu auge, passou, as duas superpotências ajustaram entre si um «modus vivendi» e, finalmente, o próprio poder da União Soviética entrou em colapso, em 1989, o que pôs fim à guerra fria. No entanto, o embargo a Cuba ainda se mantém, sem que se vislumbre nenhuma lógica para a sua perpetuação, quer em si, quer em comparação com outras situações de conflito.

O absurdo da situação resulta precisamente da ausência de uma explicação racional para o facto, quer em termos políticos, quer em termos de direito internacional. As duas nações não estão nem estiveram em guerra e, no entanto, milhões de cubanos são sacrificados, por força do definhamento da sua economia, sem que o regime cubano dê sinais de alteração significativa. Que dizer então do conflito cruel, da guerra medonha, que durante anos opôs os Estados Unidos ao Vietname e do facto de os dois países terem entretanto retomado um normal relacionamento internacional, diplomático e comercial, sem que os vietnamitas tenham alterado, no essencial, a estrutura do seu regime de matriz comunista?

O absurdo da manutenção do bloqueio económico deriva do facto de que todo este processo, que não tem explicação razoável, representa um atentado à racionalidade, que deve orientar a política. De facto, a actuação norte-americana neste estranho caso exprime a completa subjugação da política à emoção: por um lado, à emoção, cristalizada nos acontecimentos que caracterizaram os primeiros anos da década de 1960, como se nada tivesse mudado desde então; por outro lado, à emoção resultante da pressão fortíssima exercida pela poderosa comunidade cubana exilada, toda ela violentamente anticastrista, como se ainda vivêssemos em plena guerra fria e o muro de Berlim não tivesse caído.