quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

OS MELHORES NÃO CHEGAM AO PODER

Há uma curiosa contradição entre, por um lado, um sentimento, que se considera generalizado, de desconfiança e desencanto da população em relação à classe política e, por outro lado, a natureza da acção política e o pressuposto essencial do regime democrático, baseado na livre escolha dos cidadãos, que elegem os seus representantes, donde saem os governantes. Se os cidadãos querem realmente ser governados pelos melhores, porque motivo muitas vezes não o são? A resposta parece encontrar-se numa combinação perversa, consolidada na sociedade, de três factores.

O primeiro factor tem que ver com o processo de escolha dos representantes do povo, que é feito praticamente apenas através dos partidos, ainda por cima em listas previamente elaboradas, em que a opinião e a vontade do chefe são decisivas. Ora, sabemos por experiência que nos partidos políticos há pouca tendência para a partilha consensualizada do poder, para o pluralismo interno, o que leva à constituição de grupos ou facções, que se degladiam e são muitas vezes factores de exclusão e não de integração. Deste modo, não há adequado aproveitamento de todas as energias políticas existentes, que muitos cidadãos excluídos do poder poderiam proporcionar. Ou seja, a relevância na escolha não está na competência pessoal, mas no facto de se pertencer a determinado grupo, bem como no grau de fidelidade ao chefe.

O segundo factor diz respeito ao modo prevalecente de fazer política, baseado em cenários, representações e fingimentos fortemente mediatizados, em que é considerado melhor político o mais fotogénico, o mais bem vestido, o mais simpático, o mais comunicativo, o que discursa melhor, porventura até o que faz mais demagogia, ou seja, o que representa com mais eficácia, independentemente das suas reais qualidades, dos seus conhecimentos, da sua cultura política e das suas aptidões, em termos de inteligência, bom senso e sentido de serviço, isto é, da sua efectiva capacidade política para a governação.

O terceiro factor decorre naturalmente do segundo, por força das tendências dominantes na sociedade e dos hábitos culturais do eleitorado (o povo soberano), ele próprio muito influenciado pelas aparências que resultam dos processos mediáticos. Assim, um político bem parecido e bem falante, mas vazio de ideias e sem garantias inequívocas de seriedade, pode prevalecer facilmente sobre um candidato mais sóbrio, menos apurado na sua apresentação exterior, menos fluente e brilhante na comunicação, ainda que sério, responsável, competente e sinceramente devotado ao serviço público, com ideias sólidas, realistas, sensatas e exequíveis para a governação.