Segundo parece decorrer de escutas telefónicas efectuadas no âmbito do processo judicial «Face Oculta», de que tanto se tem falado, o Primeiro-Ministro terá sido interlocutor de Armando Vara, arguido naquele processo e vice-presidente do Banco Millenium, em matérias delicadas que dizem respeito à comunicação social. Interrogado sobre o assunto, José Sócrates respondeu simplesmente que não tinha que dar satisfações sobre conversas privadas tidas com amigos. Alguns comentadores vieram dizer o mesmo, insurgindo-se ao mesmo tempo contra aquilo que consideraram uma tentativa de intromissão na privacidade do chefe do Governo.Parece resultar daqui uma tese interessante: aquelas conversas não seriam substancialmente diferentes das que, essas sim inteiramente privadas, o cidadão José Sócrates poderia ter tido com um qualquer seu familiar sobre, por exemplo, as notas dos filhos nos exames ou umas novas plantas que iria plantar no jardim da sua casa. A tese pode ser interessante, mas baseia-se num sofisma. É que foi na qualidade de Primeiro-Ministro que Sócrates falou com Armando Vara, certamente seu amigo, mas comunicou com ele enquanto alto dirigente de um banco com fortes intervenções financeiras em empresas.
Por outro lado, não conversaram sobre o estado do tempo, o próximo jogo de futebol da selecção nacional ou outras trivialidades, mas terão trocado impressões sobre coisas graves e sensíveis relacionadas com a TVI e os jornalistas desta estação televisiva considerados «hostis» pela sua informação crítica relativamente ao Primeiro-Ministro. De facto, ambos estavam em recantos privados, eventualmente no conforto dos respectivos gabinetes, mas o objecto das suas conversas tinha natureza pública e implicações políticas, pelo que se revestiam de indiscutível interesse público. Não se tratou de conversas entre cidadãos, mas de conversas entre políticos.
Os homens públicos, sobretudo os que exercem o poder, com o qual podem mudar a vida e alterar os interesses legítimos dos cidadãos, não podem esquecer-se de que são isso mesmo, «homens públicos», expostos à opinião pública, inevitavelmente sujeitos, por isso, a um escrutínio que não é nem tem que ser exercido sobre os demais cidadãos. O exercício do poder traz fausto e glória, domínio e influência, mas acarreta, ao mesmo tempo, alguns ónus, limitações e incomodidades. Não se pode ter tudo.